quarta-feira, novembro 19, 2008

Ferrugem

Nas mãos a caneca grande demais para o café. Na boca, o café já meio morno. No pensamento o pensamento de ontem tentando se re-traduzir como quem requenta um café sabendo que, ao prová-lo, desistirá de tomar. Sobre a mesa, uma folha de caderno já meio amassada de tanto lida – no tempo em que já não se escreve a mão, já não se passa a limpo, já não se relê muito as coisas porque o tempo é curto.
No coração (palavra boba mas insubstituível), algumas angústias repetitivas e copiadas sobre o tempo, sobre a temperatura, sobre o vermelho-velho do cabelo. Algumas frases de fato por dizer, alguma sensação de ter ido longe demais, de ter feito um bolo em forno alto. Alguns erros na vida são irreparáveis, imperceptivelmente irreparáveis. Algumas cicatrizes pequenas só a gente mesmo vê. Alguns perdões são impossíveis – se é que existe perdão nessa vida.
O café melancólico, frio e melancólico, da cena melancólica que ela mesma criara sem perceber que a cortina de tanto tempo fechada já sustentava um tom poeirento de vermelho-velho, como seu cabelo.
O que não sabia era lidar com a vontade incoerente, persistente, contrastante com a sensação ora de fim, ora de eterna primeira impressão.
Denise já não era a mesma. Chegava a falar de si na terceira pessoa para minorar a dor dessa constatação. Olhava de longe. Dava-se somente em frases curtas, não mais em gestos arrebatadores.
Denise parada num bar tomando café frio numa caneca grande. Já não queimava a garganta com a pressa de viver. Já não fazia questão de efemeridades.
Envelhecera com a cor do cabelo. O furor intenso que antes a movia parecia estacionado numa vontade de deixar-se opaca, de deixar a vida vir a si ao invés de correr atrás e forçá-la como uma inversão de papéis. As rédeas ficavam pesadas às vezes e a melhor – talvez não a melhor, mas a mais confortável – coisa a se fazer era ficar e esperar. Não como quem toma um táxi na rua, mas como uma estudante que escolhe o ônibus pela cor.

5 comentários:

  1. Não é por acaso que seu nome rima com poetisa. Cada coisa sua que eu leio me faz sentir orgulhoso, tipo orgulho de pai. Tõ ficando velho...e babão.

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  2. Vou me ater a um trecho: Alguns perdões são impossíveis – se é que existe perdão nessa vida.

    Já leu A tempestade de Shakespeare?
    Não sei.
    Lendo seu texto me lembrei do enredo dessa peça...
    =*

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  3. comentei antes de ler.

    e ainda acho mesmo assim, tudo aqui bem pessoal e genial.

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