domingo, maio 24, 2009

Sensorial

É que as palavras não dizem. Ainda que vastas, não bastam. Mesmo assim teimo e vou dizendo silêncios e silêncios, assim, em sussurro no ouvido - como verdades grandes.

Dizendo pelos poros, pelos pêlos. Pelos cílios que se encontram por acaso na luz branda da escuridão. Pelos olhos que brilham no encontro do espanto, no espanto do encontro, no deslumbre do encontro que é sempre o primeiro. Os silêncios gritam, quase como um velho cliché - mas um cliché único, novo, des-lum-bran-te. O encontro diário.

Daí que os olhos se lêem depois. Os olhos conversam, se entendem. Os olhos se sabem de um jeito, ainda que não se enxerguem direito, ainda que na escuridão profunda das madrugadas.

Então, os lábios conversam, trocam as mais indizíveis palavras.

Então, as almas se lêem à revelia do poeta - os corpos e as almas entrelaçados no gesto único.

As almas brilham à luz da manhã como o sexo no escuro. As palavras afinal são poucas, mas se desdobram em dizeres múltiplos pelos diferentes sentidos.

Pode sentir?

2 comentários:

  1. Sob o manto sombreado, ervas úmidas descansam com seus ínfimos e dedicados amores. Em espantosa quietude suspiram devagar trêmulas juras de cumplicidade aos que rastejam no solo; força e fragilidade numa pureza que deita pássaros e flores, insetos e arbustos, ao seio da mesma mãe.
    Líquen e dossel silenciosamente evoluem e compõe cada qual à sua complexidade o cenário mais belo ao olhar atento daquele que nada procura. O rio, com seu eterno curso, também evolui e faz correr suas águas sem se importar se a carne que procura banho perde o vigor pela indiferente mão do tempo.
    Há mulheres e homens nesta mesma floresta partilhando o rastejar do solo, o descanso dos pássaros, cúmplices como tantos outros dos amores harmoniosos das mais ínfimas relações, em paz como ervas ao silêncio de suas sombras. A semente os alimenta em doce gracejo louvando sua chegada ao solo, como parte de um delicado enovelamento de evoluções.

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