quinta-feira, outubro 11, 2012

"Por favor, me reconheça"

Ao som de Amor, meu grande amor (Frejat).

Às almas incomunicáveis.


Eu achei que se eu ficasse olhando para a porta você viria. Eu já não sabia dizer há quanto tempo esperava. Não saberia precisar coisas imprecisas como a cor do céu, talvez a tarde já tivesse caído, o sol tivesse baixado. Devia ter uma claridade bonita lá fora, a luz poderia bater como um tapa no meu rosto e desfazer essa expressão desesperada de olhos vidrados na porta.

Já fazia muito tempo que eu estava ali e eu sabia que você não vinha. Talvez tivesse ficado preso no trânsito, quem sabe um acidente ou apenas um desses imprevistos inescapáveis. O celular mudo em minhas mãos sugeria algo mais grave e impeditivo. Se não viesse, eu tinha alguma certeza rasa de que você ligaria, pensei abusando de minha própria credulidade.

Há imprevistos, obstáculos e outras coisas absolutamente contornáveis.

Eu pensava - digo isto por pura força de expressão, posto que não havia uma ponta sequer de racionalidade ali. Se houvesse, eu piscaria lentamente as pálpebras cansadas e me libertaria da tarefa inútil. Repito que não havia nenhum tipo de racionalidade - que talvez você tivesse dificuldade de me ver quando entrasse por aquela mesma porta. Eu poderia parecer imperceptível em meio a tantas pessoas e mesas, por isso me posicionei estrategicamente próximo à porta, meio de frente, meio de lado, pronta para abrir um sorriso quando você chegasse e me visse. Eu queria que você chegasse e me visse. Queria que você visse que eu estava ali esperando durante todo esse tempo com a minha melhor cara de desespero.

Eu tinha um milhão de coisas para dizer e as coisas pareciam querer ser ditas a qualquer preço, mesmo sem você aqui. À essa altura, nem faz sentido dizer que você não apareceu, tamanha a obviedade disso.

Eu olhava aflita a calma das pessoas em volta, engolia em seco puxando de volta ao estômago as frases todas, imaginando se eles percebiam, se eles sentiam no ar ou se era possível ver nos meus olhos. Eu sequer sabia dizer quem eram os tais eles, mas tinha a sensação de que sim, todos viam, percebiam, sentiam no ar o cheiro. Recebia de volta algumas expressões de incompreensão, desprezo, perplexidade, medo. Expressões que não se convertiam em ações mais concretas do que aquele afastamento sutil do corpo ao passar perto da mesa.

Eu amaldiçoava os tempos pós-modernos, os cerceamentos e as repressões nossas de cada dia enquanto alternava o olhar entre a porta e o aviso de proibido fumar. Frases de bonitas paredes francesas percorriam minha mente numa velocidade que eu chamaria de superior à velocidade de luz por pura provocação no vazio. Fato é que eu não tinha meios de mensurá-la, a velocidade da luz.

A vertigem do pecado me percorria os poros e transformava a ansiedade desesperada em ódio. Levantei e saí com a mesma irracionalidade de antes. Cruzei rapidamente a portas dos fundos tentando passar despercebida enquanto você adentrava esbaforido o salão principal, os olhos também desesperados percorrendo as mesas à minha procura.

Na rua, o vento bagunçou meus cabelos, mas não me impediu de acender um cigarro.

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