quarta-feira, novembro 21, 2012

"Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor"

Para ler ao som de Flor da Idade (Chico Buarque)

Uma gaveta antiga, um baú antigo, uma casa antiga em que a gente achou que nunca mais pisaria, mas aí tem uma coisa de que se precisa e as teias de aranha, o amarelado do tempo e as traças se tornam o caminho necessário para encontrar.

Procurar as funduras, as nesgas, os rasgos, os envelhecimentos das bordas dos papéis que, com o tempo, deixaram essa imagem bonita. A gente nunca coloca luvas porque nunca sabe quão fundo terá que mergulhar, quantas gavetas é preciso abrir para vasculhar minuciosamente à procura. E a certeza de que não está lá.

A tentação de desistir ao primeiro espirro é grande. Algo diz que a tal paz interior nem é assim tão bonita. Que eu não me torno um ser humano melhor - o diabinho do ombro fica repetindo incansavelmente que eu nem quero isso, que melhor nem existe, mas eu sigo.

Como quem se jogou no mar aberto não faz muito e agora se aventura em remadas largas, agora abro gavetas e me arrisco com insetos, poeira e traças. Me arrisco com o tempo e todo o pó que se acumulou todos esses anos sobre as emoções.

Podia ser um risco num papel, obra de arte ou sinalização de feito numa lista de tarefas, mas no fundo não seria mais do que uma rima óbvia - e o caminho é sempre escolher o óbvio por medo de encarar o difícil, colocar as mãos na terra, sentir a carne entrando por debaixo das unhas. Descosturar a ferida que acabou cicatrizando mesmo sem curativo. Tá lá a cicatriz bonita e eu resolvo que vale a pena abrir e tentar recosturar direito - pro diabinho relembrar as posições esquerdistas da vida com sua melhor expressão de incompreensão.

Medo de mexer nas funduras, reabrir feridas. Apatia e preguiça convivem com o esforço de reconciliar passado, arrumar a vida junto com as coisas. Limpar a consciência junto com o chão. Quase obrigação de ofício, não adianta apagar o passado e fingir que não existiu. Se a gente sabe que não tem mesmo jeito de 'aprender com os erros', resta aceitar, aprender a conviver com ele, tentar entendê-lo.

Vivendo com a tal danação de tentar compreender a compreensão. E a sensação de orgulho interior por estar fazendo, por estar tentando os gerúndios que são mesmo a ação em movimento, ainda que o barco pareça parado, ainda que tenha que remar com toda força pr'ele se locomover e às vezes pareça que a força se perdeu em metáforas bobas com cara de texto de auto-ajuda. Uma vez aprendi que se deve viver apesar de.

E a gente vive.

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