quinta-feira, dezembro 01, 2005

Um relato qualquer e meio perdido

Todas as minhas histórias são só começos de uma vida desesperada, só que sem exageros. Gosto de acreditar que existem vírgulas e que nós nunca sabemos colocá-las nos lugares certos. Nunca sabemos viver as experiências do jeito certo, no momento certo. Mas apesar da nossa inexperiência, adquirimos experiências. Estamos sempre aprendendo coisas extremamente úteis para o nosso presente, mas que, infelizmente, já terão perdido a utilidade quando aprendermos.
Um dia me disseram que viver não era crime, que anseios não eram pecados. Um dia me convenceram de que desejo era uma palavra bonita. Disseram-me assim: “Vamos brincar um pouco.” Eu fechei os olhos, joguei fora os medos e perdi o controle. “Vamos fazer um filme” – disseram-me. E de close em close, eu fui perdendo a pose e até sorri feliz, como um dia já disseram. Descobri que a vida é desesperada e, valendo a pena ou não, o que está feito está feito.
Sozinha me descobri pertencente a uma geração que inevitavelmente irá morrer de câncer, então, é preciso mergulhar mais nos prazeres. Aprendi que não dá pra lutar contra o inevitável e que ficar triste por muito tempo não faz poetas, faz gente resmungona e amargurada. Estou tentando ser sincera sem falar demais. Sei que é bom falar o que sente, mas às vezes esperar muda os sentimentos. Me disseram também – mas isso eu ainda não sei – que o tempo é remédio. Só que ele passa tão rápido, leva tanta coisa.
Aos poucos, eu fui criando lembranças só minhas, fazendo meu jeito de ter sempre as pessoas. Fiz uma caixa onde eu me guardo em relíquias sem valor. Vi que valor a gente é que faz e muda. Eu vi que amigos tentam ajudar com seus valores e fazem o que acham que é melhor para nós, e que família depois de um tempo desiste e passa a nos aceitar. Aprendi que culpa pode virar muitas outras coisas e que os fatos crescem e a gente perde o controle da vida.
Eu não sei onde comecei nem onde vou terminar. Um dia eu percebi que estaria sempre no meio. E é bom começar coisas e sonhar coisas mesmo sabendo que sonhos mudam e que não dá tempo de terminar tudo. É bom imaginar mil rumos que poderíamos ter tomado e melhor ainda saber que é impossível saber o rumo que tomaremos. Aprendi que rotina faz falta. Pessoas fazem falta. Objetos fazem falta. Lugares fazem falta. E é tudo saudade irreversível.
Há pessoas que nos deixam felizes apenas por existirem.
A gente ganha e perde o tempo todo, mas a vida não é um jogo. Aprendi que rituais são divertidos e acalmam, religiões sufocam e enlouquecem. Tomar banho é uma das melhores coisas do mundo. Jogos de sedução só valem a pena quando são sinceros. Batalhar por espaço na vida de uma pessoa é angustiante. Ter um espaço na vida de outra pessoa é maravilhoso.
Aprendi que vida não tem moeda. As coisas e pessoas não têm preço. E se nada tem preço, também não existem dívidas e, menos ainda, cobranças. Cobrar é cruel e ser cobrado é ruim. As pessoas têm um espaço que intimidade alguma invade. Desacreditei em fidelidade. Aprendi com uma pessoa muito especial que devemos fazer o que queremos fazer. Devemos aproveitar as chances. Devemos correr atrás dos nossos desejos. Porque desejo é uma palavra linda! E que amor pensa antes no outro, sem deixar de pensar em si, mas levando em consideração a felicidade de ambos. Pois tudo tem dois ou mais lados.
Sei que amor surge com o tempo e vai embora com o tempo. Mas eu não conheço o tempo. Sei que quando se diz: “eu te amo” tem que ser sincero. Não precisa ser recíproco porque amor é egoísta. Mas amor existe. E se não existisse nada valeria a pena e tudo estaria apenas feito. Mas cada amor é de um jeito e cada pessoa acha que seu amor é o verdadeiro. Verdades vêm de muitos lugares. Aprendi que o melhor é amar agora e bem fundo. Estar preparado para tudo. Querer até a raiz do cabelo. Perder até a última lágrima. Esquecer o mundo e suas verdades e suas concepções de amor. Porque amor é dessas coisas que não deviam ser comentadas, discutidas e formatadas. Amor foi feito pra viver e só. Só que é bem melhor se não for só.
Aprendi que chorar faz parte e chorar sempre é drama. Toda intensidade merece uma dose de equilíbrio. Sorrisos e lágrimas têm sua magia.
No fundo todos vivem papéis e representam mil coisas. Só que existem mentiras sinceras. Todos desejamos uma cena pra protagonizar e nem sempre nos basta que a cena pertença só à nossa vida. Queremos sempre muito. Nem sempre temos muito. Nem sempre temos o que queremos. Todos somos muitos. È difícil ser um personagem só. É difícil escolher um caminho só na vida. Correr atrás de desejos é bom. Arrepender-se do que se fez é melhor do que se arrepender do que não fez, pois a vida nos dá álibis. Pessoas nos decepcionam por muitas coisas. Pessoas erram. Decepção é comum e inevitável.
A vida dá voltas que nem sonhamos. Grandes dramas sempre começam com cenas banais que desencadeiam um lindo romance. Mas a vida real não é um livro. Não é um romance. Não é um teatro. As pessoas não são atores. São reais. São imprevisíveis. Sempre. As pessoas são contraditórias e incoerentes. As pessoas são inverossímeis.
Ler é mágico. Sentir é mágico. Vento no rosto é mágico. Beijo na boca é mágico. Sol de fim de tarde aquecendo a pele é mágico. Cerveja gelada no bar com amigos é mágico. Uma boa conversa é mágica. Horizonte é mágico. Nuvem de algodão é mágico. Silêncio cheio de compreensão é mágico. Mudar de humor por causa de uma pessoa é mágico. Fazer outra pessoa mudar de humor é mágico. Sorrir é mágico. Olhar pra baixo de um lugar bem alto é mágico. Ouvir música é mágico. Não ter medo é mágico. Choro compulsivo é mágico. Sorriso sincero é mágico. Andar com o pé na água é mágico. Tomar sorvete na chuva é mágico. Dormir profundamente é mágico. Acordar tarde é mágico. Acordar cedo e de bom humor é mágico. Abraço é mágico. Ter lembranças boas é mágico. Ficar horas sozinho, pensando, é mágico. Ficar horas acompanhado, conversando, é mágico. Ser sincero com alguém é mágico. Ajudar alguém é mágico. Receber ajuda é mágico. Fazer uma coisa porque se quer é mágico. Não fazer alguma coisa que não se quer é mágico. Saber o que quer é mágico. Viver é mágico.
Eu tava pronta pra dizer um monte de coisas e ganhei uma flor para acabar com a minha tristeza.

2 comentários:

  1. Foi uma noite dessas - acho que noite retrasada - que eu sentei pra escrever uma carta. Ela começou pr'um destinatário sem rosto. Depois ganhou um rosto, outro rosto e outro rosto. Um era você.
    Aí eu vim aqui.
    "Nem sempre nos basta que a cena pertença só à nossa vida", e eu quis te contar que escrevi um pedaço de carta pra você.
    Você é especial na minha vida de um jeito muito, muito específico.
    Eu tô comendo pão com um queijo minas que tá divino.
    Até segunda (!!)

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  2. vc sempre escreve tanto assim ????

    Liza, tenho q te encontrar pra entregar seu convite da minha formatura!!!

    bjks............

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