sábado, dezembro 17, 2011

Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios

Estou há uns seis meses com esse livro em minha companhia com as recomendações de que seria ótimo, uma das obras primas da literatura recente. Tanto que assim que a maré de mil coisas a fazer baixou (e passei para o mestrado! êh!) optei por descansar a minha cabeça lendo o tal livro do Marçal Aquino, cuja foto de capa vocês podem conferir abaixo:


O problema é que depois que se começa a ter senso crítico na vida, isso não se restringe ao que é do âmbito acadêmico, não dá para desligar o botão quando se entra de férias. É bom levantar problemas a respeito das coisas ao invés de tomar tudo como simples deleite descompromissado porque artístico. Aliás, foi isso o que sempre me incomodou no universo das Letras e contribuiu muito para que a balança pesasse mais para o lado da História, um certo ar excessivamente contemplativo e estético que às vezes deixa de lado o contexto e os compromissos inalienáveis que toda obra tem com seu próprio tempo.

Isso tudo para dizer que Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é um livro que até tem seus méritos, mas é extremamente machista. Sabe aquela velha, desgastada e muito difundida imagem da mulher simultaneamente boa esposa e piranha para satisfazer o homem? Pois então... Eu estava lendo com muita boa vontade e curiosidade a trama até uma das primeiras cenas de romance (caso não queira saber detalhes da trama, interrompa sua leitura exatamente aqui, pois vou começar a fazer essa coisa chata, porém, extremamente necessária para dizer o que eu preciso dizer) entre o casal Lavínia e Cauby. A personagem masculina, que narra a história, encaminha-se para abrir a porta para sua amada e no caminho olha desconsertado para a pia cheia de louça com que receberá a visita, "Lavei as mãos na torneira do tanque e, a caminho da sala, passei pela cozinha: louças e talheres sujos se amontoavam na pia" (AQUINO, 2005, p. 34). Até aí tudo bem, né?, o cara tem todo o direito de olhar a sua própria louça. O desagrado iniciou algumas linhas depois e tornou-se completo nas páginas seguintes. 

Continuo com o spoiler: logo ao entrar, Lavínia "deu uma discreta avaliada no caos da pia ao passarmos pela cozinha" (Idem). Nesse momento as minhas sobrancelhas devem ter se retorcido um pouco pelo pressentimento ruim que se confirmou na página 36, quando "Depois de fotografar Zacarias, Lavínia entrou na cozinha e começou a lavar a louça acumulada na pia. Não, não faça isso [Cauby diz]. Eu gosto, ela disse" (AQUINO, 2005, p. 36, grifo, desespero e desgosto meus!!!!). Para fazer o trocadilho besta com o título, para mim, a pior notícia já estava dita.

Vocês vão me perguntar: "por que, então, continuar a leitura?". Não é porque eu gosto de sofrer, é porque eu não podia simplesmente tomar o livro todo por essa manifestação ridícula de misoginia com a clássica compreensão de que lugar de mulher é na cozinha. Não só isso, né?, tem o adendo que nós já ouvimos inúmeras vezes, de que modificar esse papel é ir contra a natureza da mulher, a prova cabal disso é que elas gostam de servir a seus homens, amam as atividades domésticas e nascem com vocação materna. Não larguei porque queria ver até onde isso iria e porque seria pouco justo julgar o livro apenas por essa cena. Vamos então.

Depois que o relacionamento entre Lavínia e Cauby começa a existir de fato, a personalidade da personagem feminina é construída, digo, as duas personalidades o são. O quê? Você não entendeu? Deixa eu explicar: lembra de Lucíola, aquele romance do José de Alencar, lá do século XIX (quando a gente até compreende, mas não aceita!, uma postura mais machista)? É, aquele livro em que a personagem feminina se desdobra em duas, uma casta e outra pervertida? Na verdade é a personagem pervertida que tem um passado triste que justifica ela ter sido desvirtuada do caminho justo de todas as mulheres. A impressão que eu tive é que a Lavínia-Shirley (jájá eu explico isso) é uma Lucíola-Lúcia do século XXI, tanto que no final ela até adquire um terceiro nome e, para a minha nula surpresa, passa a se chamar Lúcia!

Tá, mas deixa eu voltar um pouquinho para vocês entenderem. Lavínia na verdade é histérica, retomando aquela velha imagem de que quando a mulher foge dos padrões é literalmente rotulada como fora da norma, passa a ser considerada louca. Mais um chato cliché que Marçal Aquino nos traz. A diferença é que a 'loucura' de Lavínia é ter duas personalidades, o que para mim seria esquizofrenia, mas como eu não sou psiquiatra, eu vou fingir que não acho que ela dá o nome histeria porque é essa a doença normalmente atribuída às mulheres... Daí, Lavínia é a boa moça, casta, dona de casa, doce, dedicada e delicada. A outra é Shirley, a devassa (é, igualzinho à cerveja que fica reduzindo a imagem das mulheres à vulgaridade e sexo, como mostra esse anúncio em que o verbo pegar e a silhueta feminina, como de praxe, estão bem destacados), cujo apetite sexual é constante e está o tempo todo pronta para realizar todos os desejos de ambas as personagens masculinas, Cauby e Ernani. 

A pessoa que me emprestou o livro (uma grande amiga, porém, bastante sexista - a ponto de dizer isso com um quê de orgulho que me preocupa) disse para eu relevar esses detalhes e reparar na narrativa. Lembram do argumento estético meio vazio que eu falei no início, então... Mas eu não achei a narrativa nada demais. Algum dinamismo, mas não me prendeu. O que me fez continuar até o fim, como disse, foi querer saber até aonde aquilo iria.

Lembram que eu disse que o livro tinha seus méritos? No final, tem uma certa crítica a um protestantismo fanático que anda muito na moda. O problema (sempre há muitos, meu deus!) é que ela é um pouquinho mal construída, porque no fim das contas fica reduzida a um outro preconceito: com as cidades pequenas. A história se passa numa cidade de garimpo do Pará, que não recebe nome, sugerindo que cidade pequena é tudo igual mesmo. O desfecho pretende problematizar a classificação do que é e do que não é pecado, mostrando cristãos que apedrejam um suposto criminoso. Só que o que fica no ar é que a população do interior não tem muito discernimento, cai na conversa de qualquer um, pode chegar qualquer pastor ou empresário pilantra que leva todo mundo na lábia.


Por fim, o que era para ser a minha primeira leitura de férias acabou sendo uma decepção e mais uma constatação de que esse mundo precisa mudar. E que reforçar preconceitos, estereótipos e desigualdades não deve ser o papel de nenhuma arte.

5 comentários:

  1. Não gostei dos comentários. Você tentou provar com citações a sua impressão sobre a obra. É impossível confirmar que tudo o que você pretensamente tenta comprovar é, de fato, o que o autor pretendeu transmitir. Tal como você, também acabei de ler o livro, pela terceira vez. Sou mulher, não sou sexista, acredito na igualdade dos sexos, e não senti preconceito nas falas destacadas por você. A Lavínia, muito pelo contrário do que você disse, não era submissa!!! De acordo os estudos feministas, a partir do momento em que as mulheres começam a se prostituir, aí é que elas se assumem como mulheres. Explicando melhor: as mulheres, na literatura,sempre foram relegadas ao segundo plano e destinadas a ficarem em casa, sobretudo na cozinha. A prostituição foi uma "fuga", uma estratégia para que as mulheres, até então atadas em suas possibilidades, pudessem se mover para a rua a fim de uma libertação (para um aprofundamento, ver publicações de Nísia Floresta). Enfim, sempre tentei ver a literatura como algo mais leve, de caráter de diversão. Tente fazê-lo também, ou não se divertirá com nada! O fantástico pede que apaguemos a realidade por instantes, já que a vida real e acadêmica já nos exige tanta dose se realidade!

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    1. Anônima pessoa, a literatura já deixou há tempos de fazer o papel de acabar, como um psicotrópico, com a realidade e implantar uma fantasia. E se sentir mais mulher não tem a ver com prostituição e muito menos em saber lavar uma louça. tampouco nos endurece a academia e a vida, se formos inteligentes ao ponto de saber saborear cada pedaço da existência. Não sou mulher e não li o livro. talvez precise ler. Não sei. Mas, acho que você precisa encarar o ato de ler não somente como um alívio, como coisa leve. Leitura também é metamorfose. e nos serve, sobretudo, para rasgar a pele antiga, com os sentimentos e visões de mundo já obsoletas. é um ato de repensar-se e de se enxergar em palavras...
      Respeito suas palavras porque, foi a partir delas que eu me posicionei no mundo.

      Eliza, gostei do seu texto, como sempre. Como falei, não li o livro e não sou mulher. Mas entendo sua inteligência em colocar estes questionamentos. o clichê é cafona.

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    2. Obrigada, Ortiz e Anônima pessoa, debater os assuntos é sempre bom e não estamos nesse mundo pra concordar, as ideias enriquecem quando trocadas.

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  2. Eliza, gostei bastante de seu texto. É óbvio que a intenção do autor era idealizar Lavínia através de Cauby, entretanto somente agora parei para prestar atenção em alguns momentos de minha leitura. De fato, Marçal Aquino parece ter apelado bastante em sua narrativa.

    Estranhei muito quando Cauby afirmara a dupla-personalidade de sua amada (infelizmente, não lembrei de Lucíola e concordo plenamente com sua opinião a esse respeito. Ao meu ver, sua comparação foi bem sucedida). Geralmente, alguns autores utilizam uma estratégia para tornar a personagem aparentemente diferente, foi o caso de A Moreninha, algumas reações estranhas a fizeram, no decorrer da trama, a mulher da vida de Augusto (também idealizador, observando a moça tal qual um misto de comportamentos que a tornavam única), porém não achei isso satisfatóro no livro em questão. É óbvia a paixão de Cauby, mas sua provável falta de preocupação com essa doença de Lavínia soou incoerente (excetuando um possível benefício do homem ao ser amante da mesma). A mensagem final da obra me pareceu bastante vaga (amor? solidão?) e realmente acabou expressando, sem intenção, um certo preconceito com as pessoas do interior (afinal o protagonista se ressente pela morte do pedófilo enquanto o povo comemorava.......Sim, o autor esperava transmitir com isso mais humanidade ao seu personagem), apesar de tentar usar a famosa fórmula do contexto histórico estar em crise justamente quando o casal está vivendo bons momentos (uma forma de criar histórias paralelas até tudo entrar em conflito, todavia Aquino cria uma ponte ridícula para unir suas tramas e a paixão do casal central acaba por ficar desconexa com o restante. Além da denúncia à Mineradora ser mal-estruturada se levarmos em conta sua grande importância na vida real).

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    1. Alecs,
      Em primeiro lugar, obrigada pelo comentário. Fico muito feliz que você tenha lido o meu texto e mais ainda que tenha gostado. Achei pertinentes as coisas que você disse, principalmente, em relação à mineradora. De fato é um problema grave de muitas regiões do país atualmente e com pouco espaço na mídia que, no livro, ficou bem en passant. Valeria muita discussão e mais destaque, certamente. Mas aí também entra a discussão de se o autor é obrigado a levar tudo para um lado mais social. Não sei se é, mas que podia ao menos não reproduzir tantos estereótipos, isso que acho muito seriamente que podia. Enfim, mas o bom da literatura é quando nos faz pensar. Obrigada pela visita. Abraços, Eliza

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