segunda-feira, março 04, 2013

Incomunicável

Nem tudo deve virar palavra. Nem tudo pode virar também. Palavra é feita para dizer e a gente só diz o que não consegue expressar de outra forma. As línguas têm jeitos outros de mostrar o que o corpo sente. Com ou sem separação metafísica. O corpo, esse construto social com o qual se convive achando que dá para ter relação de posse. Nem com o próprio nem com outros. Isso em que a gente habita e separa da categoria 'mente' fingindo que é possível dominar algum dos dois. É um. E nunca é. Assim como não é caso de fazer escolhas.

O corpo pede, manda, age por seus impulsos próprios e a gente segue num misto de obediência e rebeldia. Às vezes funciona para um lado, às vezes fracassa para o outro. Fato é que, mesmo que a gente finja não ouvir, os corpos dizem nitidamente o que querem.

Palavra não. Palavra a gente usa para dizer o que não quer, para ferir bruscamente as pessoas, para tentar desfazer erros, para destrançar textos decorados. Conversas servem para quando não se quer dizer, quando precisa amenizar, devolver objetos, resolver coisas. A voz é necessária quando existe a indiferença. Porque mesmo a raiva pode ser dita em gestos, expressões, portas batendo e choro, muito choro.

O que não é nada a gente tenta esquematizar, tenta dizer de um jeito que não pareça extremamente ofensivo, tenta desdobrar em mais frases o que deveria ser um simples e seco não.

O que se sente pode sempre ser silêncio, olhar, gemido, toque. Indecifrável, indescritível, incomunicável.

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