terça-feira, junho 28, 2011

Queria ter um arco-íris para pintar em cenas, metáforas e narrativas em looping por aqui hoje. Alguma coisa que falasse de orgulho, de não querer voltar sozinho para casa, de ler em voz alta um conto para alguém. Escrever ou reescrever alguma coisa grande, limpa e bem diferente do que diriam por aí ser pura. Fico devendo. Hoje deixo só a vontade, o desejo, o tesão. Esse sentimento/sensação que tem muitos nomes, precisa de muitos deles porque nenhum encerra, mas mais do que nomes tem cheiros, gostos, toque, pa-la-dar para dissolver assim devagar na língua. Podia ter um poema também, não fazia tanta questão de uma história (embora ficasse mais feliz se fosse uma em versos). Já que não é nada disso - mas já é alguma coisa quando é uma ideia, mesmo que não possamos cheirar ou tocar uma. Já que também não posso deixar um perfume nisso que não é um papel. [Eu me lembro bem do tempo em que as cartas de amor podiam ser perfumadas, eu lembro de quando existiam papéis de carta e a gente escolhia o mais bonito imaginando a cara que a pessoa faria quando abrisse o envelope - o que nos leva a crer que eu sou de um tempo muito brega]. Eu também sou do tempo que existia envelope e nem faz tanto tempo assim, mas as rupturas nos fazem querer agarrar alguma coisa do antes para lidar com a mudança. Mudanças são difíceis e como disse hoje uma amiga, nosso tempo é de muitas lutas. E do orgulho da minha luta, deixo um trechinho só para vocês que também lutam, que também têm orgulho de:

"Eu também não sei direito, às vezes eu, Patrícia, você sabe. Mas é estranho não saber. Acho que ninguém sabe. Deve ser mais confortável fingir que sim ou que não, você delimita. Mas acho que aqueles que acham que são compreendem melhor essas coisas" (Onde andará Dulce Veiga, romance de Caio Fernando Abreu)[itálico no original].

Um comentário:

  1. "O quanto se é tentado a se deixar prender aí,
    a se embalar aí, a se agarrar a um rosto...”

    Como Rubem Braga dizia (acho que era o Rubbem Braga mesmo)"Ultimamente têm passado muitos anos". Isso faz as coisas terem outra medida, outra forma de digeri. Aos poucos vamos tocando em coisas vazias, esperando que aquilo dê forma ou sentido para outras coisas que estão aparentemente cheias.

    as cartas ficam suspensas nesse tempo tambem, acontece em certos dias e o rubens fonseca diz tão bem:"Fiquei de repente calado e sentido a coisa que me dá de vez em quando, nas ocasiões em que os dias ficam compridos e isso começa de manhã quando acordo sentindo uma aporrinhação enorme e penso que depois de tomar banho passa, depois de tomar café passa, depois de fazer ginástica passa depois do dia passar passa, mas não passa e chega a noite e estou na mesma, sem querer mulher ou cinema, e no dia seguinte também não acabou. Já fiquei uma semana assim, deixei crescer a barba e olhava as pessoas, não como se olha um automóvel, mas perguntando, quem é?, quem é?, quem-é-além-do-nome?, e as pessoas passando na minha frente, gente pra burro neste mundo, quem é?"

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