quarta-feira, março 07, 2012

Insatisfação de longa data


Reproduzo abaixo uma reportagem que nos ajuda a pensar que manifestação e vandalismo não são sinônimos.

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Aumento da passagem das barcas - que fazem trajeto Rio-Niterói - provoca indignação e mobiliza aparato de segurança, mas os problemas nos serviços e reação da população ao aumento das tarifas são muito antigos

Alexandre Leitão e Alice Melo

O protesto de clientes da Barcas S.A. – responsável pelo traslado aquático entre Niterói e Rio de Janeiro –, que aconteceu na manhã de hoje, supreendeu não só pela mobilização dos passageiros, mas pela tática adotada para conter a manifestação: um forte aparato de segurança, com direito a helicóptero, e o adiamento do aumento da passagem, que aconteceria hoje, para o próximo sábado. A tarifa passará de R$ 2,80 para R$ 4,50 para o usuário que não tem Bilhete Único, ou R$ 3,10 para aqueles cadastrados no programa. O aumento de mais de 60% é definitivo e foi autorizado em dezembro passado pela Alerj, pouco depois de um acidente na Baía de Guanabara com uma embarcação ter deixado mais de sessenta pessoas feridas. Os passageiros, revoltados, começaram a se mobilizar pela internet, e um professor chegou a ser intimado por publicar um vídeo no YouTube convocando a população.
A companhia de transportes alega que o reajuste no preço vem para ajudar a saldar uma dívida contraída com o Estado desde o fim da década de 1990. Segundo a Barcas SA, o transporte de passageiros a R$ 2,80 estava gerando prejuízos. E este prejuízo poderia influir no bom funcionamento dos serviços – que vem deixando a população cada vez mais insatisfeita: filas enormes e superlotação das embarcações já fazem parte do dia a dia do usuário.
“Acho que foi na quinta-feira antes do carnaval que peguei coisa de uma hora na fila, aqui na Praça XV”, conta Amanda Souza, moradora de Niterói que precisa ir todos os dias ao Centro do Rio para trabalhar. “Não dava para ver nem o fim. Às vezes chega na Rua da Assembleia. Fora que a gente fica como um gado lá dentro. Vinte minutos apertados na frente do vidro, depois mais vinte antes do outro portão, até entrar naquela carcaça que demora quarenta minutos para fazer a travessia”, conta. A Barcas S.A. e a Agência de Transportes do Rio de Janeiro (Agetransp) - empresa responsável pela fiscalização dos serviços transportes do estado - foram procuradas pela Revista de História, mas não se manifestaram a respeito.
Se o aumento nas passagens vai solucionar os problemas históricos nas barcas, só o tempo dirá. O que se sabe é que não é de hoje que as tarifas dos transportes urbanos sofrem acréscimos sem que a população seja consultada; ou que passageiros se envolvam em protestos e revoltas contra o governo ou entidades privadas que administram os serviços, por conta do mal funcionamento dos veículos. Essa história é quase tão antiga quanto a velha capital da República.
Outras revoltas
Na década de 1950, por exemplo, a União Nacional dos Estudantes, que vivia em um constante troca-troca entre direções lideradas pela juventude do PCB e da UDN lacerdista, encampou uma massiva manifestação contra o aumento das tarifas dos bondes no Rio de Janeiro. Contando com o apoio de vários sindicatos operários e a clara simpatia da população carioca, a revolta marcou o mês de maio, e forçou o presidente Juscelino Kubitscheck a convocar o Marechal Henrique Teixeira Lott para suprimi-la. O “marechal da Legalidade” - como era conhecido o oficial após sua participação decisiva na defesa da posse de Juscelino em 1955 - invadiu o Rio de Janeiro com tropas do I Exército e cercou o prédio da UNE. A tensão só foi acalmada quando JK chamou o presidente da entidade, Carlos Veloso de Oliveira, ao seu gabinete para uma negociação. Resultado: um morto.

Barcas no centro da confusão
Em 1959, o mesmo iria se repetir, só que em Niterói. O serviço de barcas, na época, era organizado pelo Grupo Carreteiro, responsável pelo aumento sucessivo da tarifa. Naquela época ainda não havia a ponte Artur da Costa e Silva, mais conhecida como Rio-Niterói, o que tornava o traslado em barcas o principal meio de transporte entre uma cidade e outra.  No dia 21 de maio daquele ano, o Sindicato dos Marítimos e Operários Navais declarou greve, inativando boa parte da frota aquaviária. Na manhã seguinte, quando fuzileiros navais tentavam organizar a multidão de passageiros em fila na mesma praça Araribóia, um dos guardas atirou uma rajada de metralhadora para o alto. Foi o estopim que detonou a frustração dos populares com o serviço.
Imediatamente, os usuários invadiram a estação e atearam fogo tanto na construção quanto nas embarcações atracadas naquele porto. Alguém teria dito, no meio da confusão: “Vamos queimar a casa desses ladrões!”. E os manifestantes rumaram aos gritos ao bairro Fonseca, onde ficava a mansão da família Carreteiro. As propriedades da família foram destruídas pelo fogo e, no dia seguinte, um bilhete foi encontrado escrito na parede: “Aqui jaz a fortuna do Grupo Carreteiro, acumuladas com o sacrifício do povo”. Jornais locais chegaram a descrever Niterói como uma “Bastilha” e o número de mortos surpreendeu: seis no total, com mais de cem pessoas feridas. O governo estatizou o serviço, que só voltaria a ser privatizado nos anos 90.    
Ônibus em chamas
O principal meio de transporte público urbano do Rio de Janeiro também não poderia ficar fora dos atos contra aumento de tarifas ou problemas nos serviços. Os ônibus, desde seu aparecimento nas ruas e avenidas do estado, são os grandes protagonistas quando se fala em problemas no setor. Em 1987, por exemplo, quando a Fetranspor anunciou que haveria aumento na passagem dos coletivos - com Moreira Franco no governo estadual e Saturnino Braga na prefeitura do Rio de Janeiro -, revoltosos se concentraram na Cinelândia e acabaram entrando em confronto com a polícia. A cena teve direito a bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes e pedradas. Não deixando a dever nada às manifestações de maio de 1968.


Protesto no Império
Mas todas estas revoltas populares sempre deverão algo à virada de ano de 1879/1880, quando abolicionistas, republicanos e, principalmente, usuários do serviço de bondes da Corte Imperial, reuniram-se para protestar contra a lei que impunha um imposto sobre o preço das passagens, aprovada pela Assembléia Geral do Império, em outubro. A revolta localizada contra o aumento somou-se às causas e ideais que mais abalariam a década de 1880. Lopes Trovão, uma das mais renomadas lideranças do movimento republicano no Rio, discursou em uma manifestação marcada para o dia 28 de dezembro, que ocupou o campo de São Cristóvão, próximo ao Palácio Imperial. Os manifestantes tencionavam entregar um abaixo-assinado contra o imposto a Dom Pedro II, e foram impedidos em sua marcha por um grande contingente policial liderado pelo chefe de polícia Feliz José da Costa e Silva.
Charge de Angelo Agostini/ Acervo da FBN
Charge de Angelo Agostini/ Acervo da FBN

O monarca comunicou depois a Trovão que receberia uma comissão para tratar do assunto, respondendo que o “povo não voltava, uma vez que lhe fecharam da primeira vez as portas do palácio”. No dia 1° de janeiro, nova manifestação foi marcada, agora no Largo do Paço, região central da cidade, com destino ao Largo de São Francisco. A reivindicação não era mais dirigida ao governo, mas ao próprio povo, pedindo simplesmente que este não obedecesse à determinação de aumento. No cruzamento entre as ruas Uruguaiana e Ouvidor um quebra-quebra generalizado irrompeu, com tiros disparados, trilhos arrancados e ataques aos condutores. Alguns dos burros que puxavam os bondes acabaram esfaqueados.
A rebelião, nomeada depois de Revolta do Vintém, terminou com três mortos e algo em torno de 15 feridos, sendo controlada com a chegada de 600 tropas do Exército. Marcante para a história do Segundo Reinado, seus efeitos concretos foram sentidos alguns meses depois, quando em abril os diretores da companhia de bondes reivindicaram junto ao governo a supressão do imposto sobre a tarifa, que foi definitivamente extinto em julho de 1880.



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