terça-feira, maio 29, 2012

Não há possibilidade de fazer nada enquanto não expurgar tudo isto. Não há meios de continuar a agir normalmente, acordar, tomar banho, café e andar na rua com essas palavras grandes, indefinidas, indecifráveis atravessadas. As palavras que deveriam ser imagens não abandonam os ciclos, círculos, pontos e espirais que se desenham e redesenham nas vertigens antigas que eu tento vender como novidades desencaixadas nos pronomes impessoais e tortos.

Celinda Ojeda


A lâmina atravessa o feltro vermelho que não só não sangra, como expurga espuma branca da forma mais sutil. Os movimentos musculares que rasgam as superfícies querendo penetrar, mergulhar fundo, destruir, ver jorrando o forro, desmontando os planos de conforto, os movimentos querem rasgar peles, espremer carnes, escorrer sangues que pingam incomoda e vagarosamente. Isto não é uma fala de teatro, não é uma cena de teatro, não é um roteiro de cinema, não é uma imagem para além do texto. É texto. É só texto. É sempre apenas texto. Emoção falseada, engodo-explosão. A vida não é feita de palavras. As palavras podem vivificar um pouco em vozes, sussurros, choros, desesperos.

É um desespero leve, alternado com essa tranquilidade grande. É um desespero atormentado por formigas, dentes, alimentos estragados, bolores. É um desespero que se refugia em filmes porque os livros são muito densos ou porque a atenção anda muito dispersa e perdida em tensões de uma era em que se dá nomes de gerações ao que antes era apenas conhecido por preguiça. Pecado capital que se fosse para escolher, não seria o escolhido. Mas a gente aprende que não somos só escolhas, que existem as tais partes de nós mesmos que não são possíveis de serem seguidas, acompanhadas, esmiuçadas. A compreensão impossível, a tarefa árdua que não deve valer a pena. O tal reflexo desprezível, o que não se quer ver de si mesmo, os atos mais falhos, os inconscientes mais corruptíveis.

O empenho intelectual vai mais fácil pelo ralo, escorre no chuveiro envolto em sangue, ferrugem e suco gástrico que deveria ser a metáfora do dia, mas foi seu prato de ontem que eu peguei frio e azedo para mastigar. Fica a mesma massa incompreensível, intocável e previsível. Massa disforme e áspera em que a gente afunda sulcos, constrói peles, faz brotar lágrimas artificiais, porque quando é verdade a dor é o grito que se escuta de longe, perdido no meio da tarde.

A dor ganha, perde, faz e desfaz contornos, curvas de seios, curvas de músculos, veias vísiveis sob a pele. A gente vai modelando a dor que nunca é mais que invenção. Limites que a gente mesmo testa porque sabe que a destruição só é possível uma vez e depois tudo é reinvenção. Depois que a gente já sabe como remonta, não tem a mesma graça o peteleco inicial do efeito dominó. Depois que a gente já sabe como faz para escalar pedras, não tem o mesmo impacto o salto dos altos abismos. Depois que a gente já conhece o nosso próprio antes, a gente tem a ilusão besta de que já se conhece, que já sabe como vai reagir. Acha que tem resposta na língua, acha que a conversa de frase-feita funciona, acha que há jeito, que tem peito, que encara, resiste e que o calor que vai subindo pelo rosto pode ser controlado antes de virar lágrima.

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