terça-feira, maio 01, 2012

Ainda sem

Para se ler ao som de O velho e o moço (Los Hermanos)

O mais novo de mim mesma é muito antigo.



São amontoados de meia dúzia de frases de livros mal lidos, outros apenas comprados que enfeitam estantes inexistentes, se espalham por mesas inutilizáveis e por pedaços de chão manchado por tintas desconhecidas cujas histórias me são bem mais atraentes do que as das capas nunca abertas.

O egoísmo é tanto que ficou gravado na pele tudo o que não é para fazer. A preocupação foi tanta que ficou tudo inacabado, desinteressante. Sempre me procurando, me procurando, me procurando em várias coisas já prontas e mal-feitas, por isso sempre vi um pouco de espelho do meu rabisco. São só rascunhos manchados, desabafos de coisa nenhuma e agora que precisava de algo pronto, ninguém fez. Todas as histórias boas estão fechadas nas estantes, no chão, nas livrarias. Não adiantou nada cortar o cabelo e decorar meia dúzia de contos se agora eles não dão conta - com o perdão do trocadilho besta - da profundidade necessária.

Repetir as mesmas frases, não ter aprendido nenhuma palavra, não ter escrito nenhuma história e não ter aprendido as formas corretas de usar o termo mesmo fazem perceber quanto tempo foi gasto à toa. Quanta lágrima desperdiçada, o choro inútil de não ter motivo para chorar.

O drama nasceu comigo. A intriga ficou faltando. Eu perdi a literatura em artigos pouco produtivos e também mal-lidos, já que nem a escrita mais mercadológica me é eficiente. Farsa intelectual. Metáfora comprada de quem roda na roda e roda fodidamente por não saber sequer dar nomes aos próprios bois. Por ter perdido a mão na hora de ser mais vaca, mais filha da puta.  São correntes historiográficas tão mal aprendidas quanto os fatos colocáveis em linha do tempo. Não dá para subverter o ensino quando não se sabe verter uma lágrima que valha a pena. Quando não se sabe a teoria clássica que pode ser desconstruída, quando uma preguiça enorme de aprender é o que mais tem espaço.

O mais novo de mim mesma é muito sem graça. Ele tem roupas novas. Ela agora mandou dizer que fuma só para poder simultaneamente esquecer mais um verso e eliminar uma tarefa do eterno dia seguinte. Ela agora diz que conhece o amor livre quando ainda repete o substantivo no singular e desconhece as adjetivações necessárias para se dar prazer. O gozo é pouco quando o dia seguinte pede o pragmatismo de um novelo de náilon do qual o felino mais idiota se desvencilharia com maestria.

O mais novo de mim não sabe ser mestre nem se convence de que possa ser algo entre chefe e alguém que pode se responsabilizar quando algo der errado. Não entendem? No meio de toda a minha frigidez, o que eu quero é que tudo se foda e se confunda e fique parecido com o que chamariam de errado só para conhecer alguma proximidade com o caos. O mais perto que eu teria de uma realização pro-fis-sio-nal em letras douradas e caligrafia de normalista seria o circo pegando fogo sem que eu pudesse assistir de fora, em que eu pudesse sentir o calor torturando a pele e participar dos gritos de desespero.

O mais velho de mim era mais dedicado intelectualmente e bem menos arrogante, mas isso eu sempre temi e previ que aconteceria. Hoje eu já não sei conjugar verbos e ainda me atrevo a me meter em oraçõezinhas com toda a minha ausência de insubordinação. Eu me escondo em linhas do tempo superficiais, finjo que tenho objetivos que não sejam um dia depois do outro enquanto penso como-quando-onde será o último e desejo como quem amarra uma fita no pulso que seja algo interessante.

Eu sei que o meu vazio é falta de empenho. Eu sei que existem histórias mais fascinantes, mais elaboradas, mais originais e, principalmente, mais bem escritas do que estas parcas que já há tanto tempo eu leio e releio. Sei que também que existem outros pronomes além da primeira pessoa do singular, mas falta um descentramento que me permita o mergulho. E falta, mais do que tudo, tomar vergonha na cara junto com o gelo do uísque que até agora sequer pode vir sem coca-cola ou guaraná.

4 comentários:

  1. Ainda não aprendi fazer comentários, nem sei se vou, mas dessa vez me atrevo, ainda que sem nada objetivo a dizer além de um "muito bom, gostei muito".
    Gosto de como escreve, e muitas vezes conheço sobre o que escreve, ainda que não na mesma intensidade ou contexto, sei do que fala. Quanto mais conheço, mais gosto, mais aplaudo, mais digo "cacete, mas não é que é isso mesmo". VIU, não sei fazer comentários, só queria mostrar que te leio.
    (como se termina um comentário? "beijo, tchau, continue!"? É, não sei mesmo fazer comentários)Adorei o texto! (eca, como soa mal).

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    1. Eu também não sei responder comentários e nem sei se isso deve ser feito. Mas achei que valia a pena dizer que o seu me veio no meio do vazio da descrença dos cinco-minutos-antes-de-entrar-na-sala-de-aula e pensei: "que bom que nada do que vou dizer agora importa, que ensinar pode ser compartilhar a angústia apenas". E sabendo que isso não é necessariamente uma boa coisa a dizer, digo: Você é a melhor aluna que eu nunca tive.

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  2. É exatamente isso que eu... Eu não sei o que dizer também. Comecei a escrever, mas como sempre, a verborragia que,como tromba d'água, me arrasta a ordem no ato de falar, me levou pra algum lugar outro. Na verdade, é um pouco de mim também esse texto e, não sei-mais-o-que. É um falar para esvaziar o corpo, a cabeça, a alma. Ah, eu, novamente e sempre, devaneando. vai ver eu sou isso. um devaneio. Quero mais que isso. Quero devanear para os outros, mais ainda!

    Essa personagem-nós-dois precisa ser corporificada!

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    1. Antes fôssemos apenas devaneios, mas a vida quer mais de nós e nós queremos muito do que não sabemos. Corporifiquemos! (e virtualizemos menos nosso amor, quero mais abraços seus de irmão-amigo-porto-seguro-que-me-protege-do-mundo-dos-monstros-de-mim). Te amo!

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