segunda-feira, maio 13, 2013

Na galeria

A sua vida dura quinze minutos da minha narrativa.

Parece pouco, mas esse tempo eu tiro das minhas raras horas de sono. Por isso é preciso contar junto o tempo da escrita. Estetização. Paradoxação. Neologização. Invenção rimada, ritmada e bruta.

Meus olhos distraem-se e vão fechando sozinhos enquanto te observo. Vejo-te imóvel e pego esses pequenos detalhes que deixas escorrer pelos cantos. Monto. Cato a poesia que entornas no chão. Meus olhos embaçam e já não vejo vida nenhuma. És borrão que eu verto em palavras na falta de habilidade outra - não que essa, enfim.

Dedico meu tempo de vida a fazer-te meu personagem. Não sobra nenhum dos lados. Não durmo nem narro, nem vivo, nem crio, nem como, nem faço. Pego meu molde de plástico e me divirto com o tanto que você não se deixa derreter para que o faça. Vejo no canto do seu rosto o sorriso irônico de quem percebe que no fundo as pessoas são reais e se misturam. Não é o caso de reduzir a pronomes pessoais retos, indiretos, esquerdos ou de obviedades toscas ainda mais conhecidas.

Eu leio. E disto, por hora, me alimento. Aguardo o momento de despir, cuspir palavras, salivas, trocadilhos. Por hora sinto espumar na garganta, escapar pelo canto da boca, escorrer devagar. Sinto com os olhos já fechados a baba que me escorre pelos lábios.

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