sexta-feira, agosto 17, 2012

Damas grátis: pra quem?

Dia desses, conversava com uma amiga sobre a mercantilização do corpo feminino que está por trás das programações noturnas que não cobram entrada para as mulheres. Como assim?, você deve estar se perguntando. Que mal há em deixar as mulheres entrarem de graça nas boates - e às vezes ganharem bebida liberada também? Fiquei com isso na cabeça durante alguns dias, pensando que muitas mulheres não atentam para esse tipo de violência e acham super legal entrar de graça nos lugares. Ouso dizer que muitas amigas minhas gostam e escolhem seus momentos de lazer enfatizando esse tipo de lugar para economizar dinheiro. O desconforto ficou martelando até o dia em que recebi um convite de aniversário cuja programação traz no flyer não só a entrada VIP (?) das mulheres, mas também o tal do Open Bar.


Não vejo problema nenhum em não pagar entrada, aliás, acho caro e sem sentido gastar uma fortuna para ficar num lugar escuro, abafado e com música alta. Mas não é sobre o meu espírito velho que quero falar. O probleminha invisível no 'damas grátis' é que normalmente a mesma filipeta sinaliza um valor bastante alto para a entrada dos homens, como é o caso desta que recebi.

Eu passo para vocês a mesma pergunta que minha amiga fez: por que os homens pagam valores (às vezes bem exorbitantes) para entrar numa casa noturna em que as mulheres entraram de graça algumas horas antes e estão ganhando drinks? Eles não estão pagando pela entrada, eles estão comprando um produto - foi a resposta que ela me deu e com a qual concordo plenamente. Eles estão pagando caro justamente pelas mulheres que entraram antes e já estarão bêbadas e fáceis na hora em que eles chegarem. E aí, se eles estão comprando esse produto, nada mais legítimo que ele o receba. Lógica capitalista. E nessa lógica assustadora, o cara ganha o direito de reclamar em caso de valor pago e produto não recebido.

Sei que não sou a melhor pessoa para relatar experiências nesses lugares, mas nas poucas vezes em que fui, me recordo das abordagens super agressivas, mãos no cabelo (imagino que isto seja até sorte), homens puxando pelo braço etc. Até onde me lembro, aliás, é por isso que não frequento esses lugares. O que não percebemos é que essa modalidade de violência - entre tantas outras sofridas pelas mulheres todos os dias - não está partindo apenas de meia dúzia de caras babacas. Essa violência é estimulada, alimentada, acalentada pelas casas noturnas. De vez em quando a gente vê consequências mais complicadas, uma agressão mais explícita como o caso da mulher que teve o braço quebrado ao recusar um homem numa boate em Natal. O que não vemos é que toda a lógica de funcionamento dessas casas noturnas, do ingresso às músicas tocadas, tratam as mulheres como objetos do desejo masculino - e se há alguma agência atribuída a elas, é a de satisfazer esses desejos, tornando legítimas as reações com violência física caso isto não ocorra. O que está sendo vendido não é um espaço com música e diversão, é um abatedouro em que, desculpem, eu não quero ser mais um pedaço de carne.

2 comentários:

  1. Sem contar que o feminismo é um movimento que luta pelos direitos IGUAIS independente do genero, portanto, nao tem o menor cabimento essa historia de mulher entrar de graça e o homem pagar pra entrar no mesmo local, em qualquer lugar que seja. Se a luta é pra tenhamos salarios iguais, direitos iguais e oportunidades iguais, entao que o valor de ingresso de uma boate seja igual tb.

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