sexta-feira, julho 27, 2012

É preciso fé cega e pé atrás

Para se ler ao som de Dois perdidos (Filipe Catto).


As citações antigas ajudam a povoar a entrega mais recente, o medo enorme de se jogar depois que já jogou e já caiu e já está tudo assim espalhado no chão. O silêncio é o medo de exteriorizar, de colocar em palavras, de ouvir em alto e bom som isso tudo o que a gente já sabe mas finge que pode minorar e controlar marcando prazos de distância. Dá para não interferir. Desde que não fira, desde que não atrapalhe, desde que mande um ou outro sinal de vida para sabermos que haverá uma tarde livre para. Desde que se saiba proteger as pessoas que devem ser protegidas.

O corpo fica mareado, sentindo o ritmo do teu corpo no meu mesmo depois que você se afasta. A surpresa não é uma questão de gênero, é uma questão de surpresa. É sentir na ponta dos poros um desejo já tão inimaginável, um desejo que não se vê nos olhos - e nem poderia - mas que encosta a ponta dos pelos e pasma e gruda e sua e soa e toca e geme e treme e suga e queima e revira e insinua e veste e despe e cantarola e relembra frases antigas e se perde e gruda na voz e soma outras mil conjunções aditivas que perambulam pelo ar inebriado do prazer mais simples.

Deixa marcas que qualquer um, qualquer outro, qualquer tempo viraria raiva. Mas fica, cobre de maquiagem e lenço travestido dessa elegância que a gente compra barato nos camelôs do centro. Vou construindo imagens do que quero de mim, só que perdi a decência, o time, o pudor, o bom senso. Perdi o pé atrás que me sabia nos objetivos claros. Perdi a noção do auto-conhecimento e me deixei cair nas armadilhas mais previsíveis. Achei de volta o caminho de casa e uma cesta bonita de pães. Fico me permitindo prazeres e tédios alternados. Incorporo esse gesto sublime e blasé de quem já sabe em que pé finca e em que fim dá. Começou com a cena perfeita, a porta aberta, teu cheiro no vento parado e teu gozo no corpo. Deixou de ser só mais um conto pra virar essa vontade que não tem outra palavra. É corpo, é físico. Por isso há-que respeitar. Há-que mergulhar de cabeça, tronco, membros - deixar sentir a pele que estremece e revira e entrega em lágrima imperceptível que denuncia.

Agora espero e fico desesperada de tanto esperar. Percebo os mesmos erros já cometidos e me pego achando tudo assim diminutivo, me vejo vendo beleza nas árvores da estrada e me perco horas a fio nas pontas das folhas que nunca tornarei a ver. É fio d'água.

Um comentário:

  1. Faz-se nervo, fibra, músculo róseo da epiderme das pétalas... Tem-se cavado um vazio no meio da gente quando a memória é pouca, e o verde um borrão que ofusca horizontes. Por trás dos morros, mais morros... Andemos!

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