terça-feira, julho 10, 2012

Fingir que não estou na minha própria casa, ter segredos para satisfazer vontades alheias. Me tornar uma vontade alheia. Me tornar alheia. Não ter medida das minhas próprias vontades. Não ter nada de próprio nem ter onde morar. Não ter mais na ponta da língua a resposta em versos decorados que me tiram o trabalho de moldar com as fendas das mãos que se desfazem em peles, sangue e ressecamento do frio.

Histórias começam e terminam. Páginas foram feitas para serem viradas e a outra nem ainda. O corpo está quente e o cadáver nem está ainda esverdeado como deveria. Ainda está na mesa da sala, em velório mórbido. Velo pelo prazer sádico de ver apodrecer, quero ver os vermes surgindo e ver se entra na história a controvérsia da geração espontânea. A minha morte eu gero no ventre e aborto. Não basta mais o vômito para expulsar de mim o que precisa de contrações longas, gritos lancinantes e esse frio na pele que é sempre sinônimo de vida.

A pele vai criando fissuras, os lábios descamam, há pruridos que normalmente só surgem no calor. Há o vazio. Há o vazio de pairar no vazio. Há o conforto desesperante de não esperar nada e ainda assim se decepcionar com cada pequena estupidez humana. Dá essa sensação gostosinha de superioridade. Dá essa solidão altiva no mundo, o desconforto, o não se sentir em casa - e tudo bem, já que não há nenhuma para. Há uma esperança de que o refazer preencha alguma coisa, quando toda a superfície está envernizada e não há jeito de mesclar partes, não mistura, não há jeito.

Não há porta aberta. Lacrei fendas e posso pensar em barreiras de som se for o caso. O show está montado e não há palcos. Uma cena perdida apenas, com partes de cenário que perambulam pela casa, fotos inquisidoras que olham e reolham e indagam coisas que a boa educação não permite. Ficou muita coisa para arrumar e jogar fora. Ficou o desespero e a repulsa imensa de tudo o que venha do passado. Repulsa de gente.

Vêm os vícios. A gramática tão repreensível e repressora, os cigarros, as páginas mudas à guisa de companhia, as cervejas, os pequenos detalhes que iludem e fazem pensar que a calmaria não é tanta quanto parece. Não era a última, afinal. Era mais medonha. E virão outros, outras, eu sei. Os móbiles giram e, como um bebê colocado à força e ingênuo no berço, eu olho e reolho e vejo o furacão que se aproxima no vazio de não saber de nada, não querer nada e não ter para onde fugir, não querer correr no meio da tempestade que passa mais depressa e mais lenta do que eu gostaria. Eu não gostaria nada, eu não queria nada, eu só queria sentir. E agora sinto as coisas mais fundas cortando a pelo. Exponho na ânsia de guardar e expulsar paradoxal e simultaneamente.

Eu me perco e nem ligo de estar perdida se a gente encontra um ou outro perdido pelo caminho. Muda tudo a cada minuto e o que permanece é essa desvontade absurda. Fica a ânsia de chafurdar na lama fria, pegajosa, sentir como toca a pele, como é fétida e como gruda na pele e endurece nela assim.

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