terça-feira, julho 17, 2012

Volta fitas cassete que podem ser usadas como luminárias, um copo quando cai no chão pode quebrar ou virar uma girafa. Uma figura mitológica antiga pode virar uma rocha de um país distante. Repetir o mesmo filme pode ter final diferente no mundo em que ninguém presta. A cena pela cena não dá sentido. Não basta representar para viver, sentir. Não dá pra desabalar aquilo que ainda descabela, aquilo que corrói em não aceitação e faz pensar que passar-se-á um tempo, assim com colocações pronominais antigas, e tudo voltará ao normal. Aquele normal morno, quentinho, que eu desejo só porque é inverno e porque tenho uma preguiça enorme de fazer tudo o que está por vir.

Combater o pó diário das emoções é um esforço grande. A gente alterna, se divide em muitos pedaços, muitas bonecas, muitas partes de perder a conta porque assim fica mais fácil que juntar toda a bagunça. Um pouco mais perto de livre agora. Um pouco menos de medo de andar na rua, esbarrar no corredor. A distância necessária, o cadáver já fede, um mês apodrecendo sem coragem de enterrar, sem ânimo para falar e já sem lágrimas porque não é isso o que o estômago produz.

O desespero vai ficando amigo, vira uma espécie de companheiro enquanto corrói as paredes invisíveis. Há que comer, limpar, fazer, acordar, dormir e digerir imagens, histórias, cenas, arte, cultura, literatura. Essa coisa estranha que serve pra gente ver que há outras emoções mais graves, mais bonitas e mais invejáveis do que as que eu jamais sentirei. No fim fica sempre o vazio de um novo começo.

Resta desenhar outros cenários, moldar na unha outros personagens. Tornar mais plural isso que foi se fechando num casulo estranho e eu que me acostumei a chamar de vida mesmo sabendo que a palavra não dá conta da experiência, que o universo semântico mais limita do que ajuda e ainda assim insisto.

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