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quarta-feira, março 07, 2012

Insatisfação de longa data


Reproduzo abaixo uma reportagem que nos ajuda a pensar que manifestação e vandalismo não são sinônimos.

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Aumento da passagem das barcas - que fazem trajeto Rio-Niterói - provoca indignação e mobiliza aparato de segurança, mas os problemas nos serviços e reação da população ao aumento das tarifas são muito antigos

Alexandre Leitão e Alice Melo

O protesto de clientes da Barcas S.A. – responsável pelo traslado aquático entre Niterói e Rio de Janeiro –, que aconteceu na manhã de hoje, supreendeu não só pela mobilização dos passageiros, mas pela tática adotada para conter a manifestação: um forte aparato de segurança, com direito a helicóptero, e o adiamento do aumento da passagem, que aconteceria hoje, para o próximo sábado. A tarifa passará de R$ 2,80 para R$ 4,50 para o usuário que não tem Bilhete Único, ou R$ 3,10 para aqueles cadastrados no programa. O aumento de mais de 60% é definitivo e foi autorizado em dezembro passado pela Alerj, pouco depois de um acidente na Baía de Guanabara com uma embarcação ter deixado mais de sessenta pessoas feridas. Os passageiros, revoltados, começaram a se mobilizar pela internet, e um professor chegou a ser intimado por publicar um vídeo no YouTube convocando a população.
A companhia de transportes alega que o reajuste no preço vem para ajudar a saldar uma dívida contraída com o Estado desde o fim da década de 1990. Segundo a Barcas SA, o transporte de passageiros a R$ 2,80 estava gerando prejuízos. E este prejuízo poderia influir no bom funcionamento dos serviços – que vem deixando a população cada vez mais insatisfeita: filas enormes e superlotação das embarcações já fazem parte do dia a dia do usuário.
“Acho que foi na quinta-feira antes do carnaval que peguei coisa de uma hora na fila, aqui na Praça XV”, conta Amanda Souza, moradora de Niterói que precisa ir todos os dias ao Centro do Rio para trabalhar. “Não dava para ver nem o fim. Às vezes chega na Rua da Assembleia. Fora que a gente fica como um gado lá dentro. Vinte minutos apertados na frente do vidro, depois mais vinte antes do outro portão, até entrar naquela carcaça que demora quarenta minutos para fazer a travessia”, conta. A Barcas S.A. e a Agência de Transportes do Rio de Janeiro (Agetransp) - empresa responsável pela fiscalização dos serviços transportes do estado - foram procuradas pela Revista de História, mas não se manifestaram a respeito.
Se o aumento nas passagens vai solucionar os problemas históricos nas barcas, só o tempo dirá. O que se sabe é que não é de hoje que as tarifas dos transportes urbanos sofrem acréscimos sem que a população seja consultada; ou que passageiros se envolvam em protestos e revoltas contra o governo ou entidades privadas que administram os serviços, por conta do mal funcionamento dos veículos. Essa história é quase tão antiga quanto a velha capital da República.
Outras revoltas
Na década de 1950, por exemplo, a União Nacional dos Estudantes, que vivia em um constante troca-troca entre direções lideradas pela juventude do PCB e da UDN lacerdista, encampou uma massiva manifestação contra o aumento das tarifas dos bondes no Rio de Janeiro. Contando com o apoio de vários sindicatos operários e a clara simpatia da população carioca, a revolta marcou o mês de maio, e forçou o presidente Juscelino Kubitscheck a convocar o Marechal Henrique Teixeira Lott para suprimi-la. O “marechal da Legalidade” - como era conhecido o oficial após sua participação decisiva na defesa da posse de Juscelino em 1955 - invadiu o Rio de Janeiro com tropas do I Exército e cercou o prédio da UNE. A tensão só foi acalmada quando JK chamou o presidente da entidade, Carlos Veloso de Oliveira, ao seu gabinete para uma negociação. Resultado: um morto.

Barcas no centro da confusão
Em 1959, o mesmo iria se repetir, só que em Niterói. O serviço de barcas, na época, era organizado pelo Grupo Carreteiro, responsável pelo aumento sucessivo da tarifa. Naquela época ainda não havia a ponte Artur da Costa e Silva, mais conhecida como Rio-Niterói, o que tornava o traslado em barcas o principal meio de transporte entre uma cidade e outra.  No dia 21 de maio daquele ano, o Sindicato dos Marítimos e Operários Navais declarou greve, inativando boa parte da frota aquaviária. Na manhã seguinte, quando fuzileiros navais tentavam organizar a multidão de passageiros em fila na mesma praça Araribóia, um dos guardas atirou uma rajada de metralhadora para o alto. Foi o estopim que detonou a frustração dos populares com o serviço.
Imediatamente, os usuários invadiram a estação e atearam fogo tanto na construção quanto nas embarcações atracadas naquele porto. Alguém teria dito, no meio da confusão: “Vamos queimar a casa desses ladrões!”. E os manifestantes rumaram aos gritos ao bairro Fonseca, onde ficava a mansão da família Carreteiro. As propriedades da família foram destruídas pelo fogo e, no dia seguinte, um bilhete foi encontrado escrito na parede: “Aqui jaz a fortuna do Grupo Carreteiro, acumuladas com o sacrifício do povo”. Jornais locais chegaram a descrever Niterói como uma “Bastilha” e o número de mortos surpreendeu: seis no total, com mais de cem pessoas feridas. O governo estatizou o serviço, que só voltaria a ser privatizado nos anos 90.    
Ônibus em chamas
O principal meio de transporte público urbano do Rio de Janeiro também não poderia ficar fora dos atos contra aumento de tarifas ou problemas nos serviços. Os ônibus, desde seu aparecimento nas ruas e avenidas do estado, são os grandes protagonistas quando se fala em problemas no setor. Em 1987, por exemplo, quando a Fetranspor anunciou que haveria aumento na passagem dos coletivos - com Moreira Franco no governo estadual e Saturnino Braga na prefeitura do Rio de Janeiro -, revoltosos se concentraram na Cinelândia e acabaram entrando em confronto com a polícia. A cena teve direito a bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes e pedradas. Não deixando a dever nada às manifestações de maio de 1968.


Protesto no Império
Mas todas estas revoltas populares sempre deverão algo à virada de ano de 1879/1880, quando abolicionistas, republicanos e, principalmente, usuários do serviço de bondes da Corte Imperial, reuniram-se para protestar contra a lei que impunha um imposto sobre o preço das passagens, aprovada pela Assembléia Geral do Império, em outubro. A revolta localizada contra o aumento somou-se às causas e ideais que mais abalariam a década de 1880. Lopes Trovão, uma das mais renomadas lideranças do movimento republicano no Rio, discursou em uma manifestação marcada para o dia 28 de dezembro, que ocupou o campo de São Cristóvão, próximo ao Palácio Imperial. Os manifestantes tencionavam entregar um abaixo-assinado contra o imposto a Dom Pedro II, e foram impedidos em sua marcha por um grande contingente policial liderado pelo chefe de polícia Feliz José da Costa e Silva.
Charge de Angelo Agostini/ Acervo da FBN
Charge de Angelo Agostini/ Acervo da FBN

O monarca comunicou depois a Trovão que receberia uma comissão para tratar do assunto, respondendo que o “povo não voltava, uma vez que lhe fecharam da primeira vez as portas do palácio”. No dia 1° de janeiro, nova manifestação foi marcada, agora no Largo do Paço, região central da cidade, com destino ao Largo de São Francisco. A reivindicação não era mais dirigida ao governo, mas ao próprio povo, pedindo simplesmente que este não obedecesse à determinação de aumento. No cruzamento entre as ruas Uruguaiana e Ouvidor um quebra-quebra generalizado irrompeu, com tiros disparados, trilhos arrancados e ataques aos condutores. Alguns dos burros que puxavam os bondes acabaram esfaqueados.
A rebelião, nomeada depois de Revolta do Vintém, terminou com três mortos e algo em torno de 15 feridos, sendo controlada com a chegada de 600 tropas do Exército. Marcante para a história do Segundo Reinado, seus efeitos concretos foram sentidos alguns meses depois, quando em abril os diretores da companhia de bondes reivindicaram junto ao governo a supressão do imposto sobre a tarifa, que foi definitivamente extinto em julho de 1880.



quinta-feira, março 01, 2012

O que é isso, Fernando?

O começo do eterno retorno faz com que repita sem pensar um mesmo trajeto de anos antes. A sensação de um passado longínquo corresponde mais à falta de reais distâncias a percorrer do que a embaçamentos na memória fraca. Sempre foi boa - e, afinal, foi mesmo ontem, não haveria razão para. Fato é que o tal do novo tão temido, desnorteador, desestabilizador, que há não muito cegava, provocava suores, insônias, pesadelos e angústias. Estas últimas também mais por hábito, dependência, vício que realmente por reação a acontecimentos reais.

Nenhum acontecimento real. Nenhuma novidade maior que a de pegar de volta os mesmos caminhos, voltar aos mesmos lugares, olhar nos mesmos rostos. De um lado duros, cheios de obstáculos para perpetrar. De outro ansiosos para que eu traga-lhes também um caminho, alguma coisa perto de uma certeza, uma forma próxima de concreta. Nenhum dos dois lados sabe o quanto não posso oferecer nada disso. Não sabem que trago as mesmas perguntas, os mesmos desejos de achar respostas. Talvez para um dos lados eu seja ainda muito ingenuamente sonhadora e para o outro demasiado incrédulo, no sentido de uma desesperança no que concerne a achar as respostas.

O que não sabem, ninguém sabe. É que todos fazem parte de uma mesma procura cíclica, cansativa e estimulante. Como uma escada, um medo, uma ponte ou um passo de dança. Sempre sem interrupção.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

Eu só queria que ainda fosse tempo de chorar achando que o choro faz passar. Queria fazer birra, gritar que não quero, que vou ficar em casa sofrendo a minha angústia só com meu travesseiro - e aí não ter que resolver, não ter que lidar com dois lados ainda mais incompatíveis do que toda a minha bipolaridade inventada. E aí, seríamos só nós vivendo a entrega quase infantil de tão sincera, mas que tem os percalços de vermelhidão intensa. Queria que não tivesse sempre essa sombra de insanidade me rondando, ameaçando, impelindo a escrever como uma velha e falha forma de buscar uma lucidez inatingível.

Eu tinjo detalhes com verdes e azuis que também não apagam. Tudo parece um pouco sem saída e meus dedos já estão muito em carne viva de cavar. As tempestades sempre vem intensas e costumam buscar nos dias de sol intenso uma espécie de expressão da sua ironia. Já se passaram quatro minutos do que devia e treze mascarados repetidamente em dez anos que o mesmo filme se repete. Releitura, outros contextos e, dessa vez, uma responsabilidade enorme pedindo que eu escreva um fim perto o bastante de definitivo. Amém.

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

La critique (Ana Carolina)


É a loucura não existe.
A loucura está em todos os lugares ao mesmo tempo.
Normal é o tédio dos dias sem graça que as pessoas fazem pra elas mesmas.

Saudade não é salgada não. A saudade é doce.

Eu quero permanecer calado escutando tudo.
O meu passado é de conversador, bom falador, namorador...
Penso, penso, penso, penso...
Consegui dizer tudo...
Tu ficava atrás das linhas da vida.
Sou de esquerda pô...!
O que eu quero dizer com isso? Nada to comentando!

Porque eu sou da luz, porque o único escuro que eu carrego é a sombra que o meu corpo produz.

Eu dou tantas voltas é proibido parar.
Isoglócia...
Isoglócia é a sua forma de falar, sua expressão, sua variado de seletivas de línguas.

E a pessoa que faz isso e faz aquilo e o que não faz fica mais velho, e a velhice vem mais rápido.

Daqui a pouco encontrar uma carta de euforia.

E quem não é?

Sexo é bom!
Eu paguei pra fazer.
Dez reais.
Foi bom!

Possuir razão é impor.
Pessoas que vivem fora da sanidade.

Falar, falar, falar, falar hen, hen, hen, hen, hen, hen...

Quem é você?
Quem é você?
Quem é você?
Quem é você?
Eu to perguntando quem é você?

Eu sou gente!

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Conto de verão nº 2: Bandeira Branca (Luis Fernando Veríssimo)

Não é Natal, é Carnaval... e Carnaval sempre me lembra esse conto - ou melhor, me lembra um programa que existia na TVE chamado "Contos da Meia-Noite", se não me engano, era Maria Luiza Mendonça (ou uma atriz que eu confundo com ela) quem lia esse que, sim, é realmente do Veríssimo (o filho):



Ele: tirolês. Ela: odalisca; Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.
Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
Só no terceiro Carnaval se falaram.
- Como é teu nome?
- Janice. E o teu?
- Píndaro.
- O quê?!
- Píndaro.
- Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia.
- Ah.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou na face, disse - Até o Carnaval que vem - e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
- Me dá alguma coisa.
- O quê?
- Qualquer coisa.
- O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.


***


No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que acontecera?
- Você vomitou a alma - disse a mãe.
Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro dela.

Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube - e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
- Sei lá. Bávara tropical - disse ela, rindo.
Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
- E aquela bailarina espanhola?
- Nem me fala. E o toureiro?
- Aposentado.
A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo, alguém disse -Píndaro?! - e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi - pelo menos o meu tirolês era autêntico - e desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo - não vale, você cresceu mais do que eu - e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.


***


Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse - quase não reconheci você sem fantasias -. Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muito menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele lhe dissera fora - preciso te dizer uma coisa -, e ela dissera - no Carnaval que vem, no Carnaval que vem - e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara -
- O que você ia me dizer, no outro Carnaval? - perguntou ela.
- Esqueci - mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil - E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...

Insomnia Scriptum

Uma espécie de insônia resultante de uma espécie de cansaço que não se deixa vencer se for para ver você dormindo entregue. Como uma rima boba, como uma música já feita e um momento que por se repetir não perde o sabor de novo, o sabor do gesto, ainda que imóvel.

Todas as bobagens lidas ao longo do dia pairam um pouco na mente como uma saudade clichê e uma vontade de que possa ser um pouco mais outra coisa - e a tal não vocação ou falta de vontade se confunde. Depois de feito, depois de fato, não adianta lavar o hábito que já grudou no corpo - por menos santa que seja a lingerie por baixo.

domingo, fevereiro 05, 2012

Rascunho para uma Caroline: Pesquisar ou descobrir?

Eu tô cansada de tanta babaquice, tanta caretice... 
dessa eterna falta do que falar....

Para se ler ao som de Vida louca vida.

Para uma Caroline

O tempo passa a cada minuto. Meu cabelo não é mais o mesmo, a pele, os olhos, a extensão dos músculos - e a juventude é tanta ainda que nem parece. Olhando ninguém diz. Preces antigas aparecem num espelho estranho. Na sua idade eu já era assim e só tenho pra te dizer que mesmo depois que tudo mudar - e tudo vai mudar, e como vai com direito a exclamação seca - nada muda. As angústias, desesperos, vazios, loucuras não são diluíveis em álcool, fumaça, diplomas ou mesmo tintas de caneta. Não importa o quanto você pire ou encarete; não importa quantas vezes você vai se apaixonar ou quebrar a cara; não importa o quanto você pode ficar orgulhosa de si mesma ou o quanto pode se arrepender contemplando os próprios fracassos e olheiras no espelho. Não importa se você vai escolher certo ou errado, se nós já bem sabemos que apenas a tristeza consegue ser assim tão exata. No fim das contas é só a procura que vale. Não tem a ver com os cem caminhos versus os outros noventa e nove, a vida tem muito mais curvas, esquinas, estradas e, como você já deve ter percebido, ninguém dá nenhum mapa, tutorial, ma-nu-al.

Isso significa dizer que tudo o que eu queria te dizer é que vai sim, vai ser sempre assim - como dizem as músicas e os livros e os poetas: esse vazio ninguém preenche nem tem a obrigação de. A busca desencontrada é só sua, por isso, vá reunindo as poucas coisas e pessoas em que pode se agarrar.

Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga ideia de paraíso que nos persegue, bonita e breve como borboletas que às vezes podem parecer e se transformar em anjos. Esse sangramento que ninguém estanca é o que vai te manter viva quando você achar que não é capaz de. O sangue é seu e ninguém pode ou sabe tocá-lo ou saber o que fazer com ele. Portanto, faça. E se descobrir me conte.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Era para ser qualquer coisa e pode ser qualquer coisa. Podia parecer vertigem ou dia de sol no meio da chuva, no meio do tempo, no meio da carro. Era para ser inteiro mas ficou parecendo metade por alguma falta de calor e ficou parecendo uma dívida eterna, dessas boas de pagar em pequenas prestações para não se desvencilhar de nada.

Mas aí é outra coisa, como sempre inominável - e fica tudo sendo coisa e parecendo igual quando é completamente diferente e tem só no não nome uma semelhança. Tá tudo bem quando a gente não precisa mesmo de palavras para chamar, pois olhares, suspiros e melodias simples dão conta do recado. Poderia ser um bilhetinho (azul ou de todas as cores que existem) ou uma mensagem gravada em uma secretária eletrônica que já não existe. Não há problema se já somos de outro tempo, se o tempo é nossa ocupação.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

O sumiço é sinônimo de descanso. Um descanso cansativo como a vida sempre é, porque quase nunca dá pra descansar a cabeça e o corpo ao mesmo tempo, mas dá para ir somando os momentos alternados e ver que o resultado é aquela felicidade doce, uma certeza vaga de que eu não queria estar em nenhum outro lugar agora. Aquela felicidade completamente diferente das que prometem, vendem e alugam por aí - com direito a muitos sujeitos indeterminados que a essa altura do ano é melhor deixar para lá.

As marcas do corpo mudam um pouco. O corpo, a pele, os ouvidos são outros. Cada coisinha nos faz pessoas novas, ainda mais em épocas de renovação. Mesmo em meio a trabalho duro, o sol brilha, os dias brilham, as pessoas brilham, o sol nasce, se põe, a noite cresce bonita e venta luares doces, clichês deliciosos e momentos indescritíveis, irrepetíveis, maravilindos porque partilhados.

domingo, janeiro 08, 2012

Estradas, trilhos e muitos e variados caminhos

Eu quis ter feito um post de fim de ano, ainda no clima de natal, com agradecimentos a pessoas que tornaram a barra pesada que foi dois mil e onze um pouco mais leve. Mas aí o ano acabou e ficou fora de contexto. Depois eu quis fazer um de boas vindas pro ano, com promessas, energias vibrantes que inauguram coisas, mas aí passou também. Hoje já é dia oito, já tem mais de uma semana que o ano começou e, passado o deslumbre inicial, a vida vai continuando, plena e saltitante.

Dois mil e onze foi um ano que demorou muito a passar, tanto que merece ser escrito assim, bem por extenso. Dias longos, dores longas, trabalhos árduos e intermináveis, momentos de desespero - uma das partes boas foi uma espécie de reconciliação com esse espaço aqui. Recapitular o blog esse ano é passar um pouco por tudo o que passou. Vai passar, disseram dado momento. E não era mentira. Que bom. São sempre moinhos os monstros gigantescos, mas a gente só percebe isso depois de sair em migalhas. E eu me pergunto se monstros gigantes não seriam mais amenos, mais leves...

A sensação que eu tenho (acho que até já disse isso aqui alguma vez, sou sempre muito repetitiva) é que a cada ano - poderia dizer a cada dia, não fosse a época de ciclos outros - as coisas, digo, a vida fica mais densa e mais intensa. Nos problemas e nas sensações maravilhosas pelas quais passo. Dores indescritíveis, alegrias mais indescritíveis ainda é o que deixa o tal do doismileonze. Deixa também uma vida completamente diferente e inimaginável há uns meses atrás. Os abismos foram fundos a ponto de usar essa metáfora clichê - e os voos estão sendo altos.


segunda-feira, dezembro 26, 2011

Continho infanto-juvenil sem título [aceito sugestões]

Esbaforida e atrasada como sempre, Mariana não sabia que estava pronta para iniciar um conto infanto-juvenil. Papel inconsciente, como tinha de ser, entrou na sala se sentindo única e o sendo no meio de tantas outras iguais e desconhecidas.

Não teve tempo de reparar que estava cercada por paredes brancas, algumas teias de aranha próximas ao teto, lâmpadas fosforescentes que ofuscavam os olhos se a gente olhasse diretamente para elas. Mariana não sabia porque não olhou para cima. Além das outras de sua idade que esperavam roendo unhas e/ou olhando os próprios joelhos com expressão de resignado apavoramento havia uma pessoa diferente. Uma mulher cuja altura não se podia mais que supor, já que estava sentada atrás de uma mesa na ponta oposta à porta pela qual Mariana acabara de entrar. Percebeu que era àqueles olhos frios que deveria se dirigir e achou por bem fazê-lo antes de ser interpelada pensando que, com isto, poderia evitar algum constrangimento, talvez aliviasse um pouco a sua barra ao mostrar-se disposta a colaborar.

Documentos, bravejou a moça aparentemente supervalorizando o tamanho da sala ou a distância que a mesa colocava entre si e sua vítima. A voz era de uma rudeza incongruente se fôssemos considerar o rostinho dócil e jovial de quem deveria estar do lado de cá da mesa. Não parecia ter vocação para algoz com aquelas florzinhas cor de rosa que escorriam pelo decote também pouco apropriado para a ocasião. Se fosse comigo aposto que barravam, pensou nossa Marianinha sem conseguir com este pensamento alterar a expressão apavorada.

Retirou do bolso suado do jeans última-moda-e-descolado uma caderneta escolar com as extremidades puídas e desbotadas, esperando que a moça de voz bronqueada não desconfiasse de suas incursões acidentais pela máquina de lavar. Estendeu o papel que fazia as vezes de documento para aqueles dedos finos, unhas curtas com esmalte escuro evidenciando personalidade forte e uma incompatibilidade esquisita com o colar florido do pescoço, o que fez o olhar da menina decair novamente no decote. Percebendo o atrevimento, a mulher rapidamente levou uma das mãos à região do colo, surpreendentemente deixando os seios ainda mais à mostra ao ajeitar o crachá.

O retângulo plástico com dizeres oficiais trouxe um leve estremecimento de pânico que logo desviou os de Mariana para seus próprios documentos que a outra agora tinha apoiado sobre a mesa enquanto preenchia o que parecia ser um formulário.

Assine aqui, ordenou com a mesma rispidez.

Mariana procurou nos bolsos reais e em alguns imaginários uma caneta que sabia inexistente, uma espécie de pretexto para apoiar e enxugar as mãos em si mesma antes de ser obrigada a tocar a outra. Sentia todos os seus dedos trêmulos e incapazes de empunhar uma caneta, menos ainda de escrever o que quer que fosse. Muita coisa passava por sua cabeça, um futuro perdido, as expressões terrivelmente decepcionadas de seus pais, um descompasso com os amigos, talvez os perdesse, já que seria privada de tudo o que eles teriam - a classificação grandiloquente era necessária devido ao seu total desconhecimento do que seria esse tudo, só sabia que estava perdendo.

Sem escolha, pegou a caneta que por sorte foi deixada sobre a mesa, não havendo necessidade de encostar na pele da outra. Coisa que temia e desejava simultaneamente. Paradoxo até então incompreensível para a jovem menina. Debruçou quase todo o tronco sobre a mesa a fim de disfarçar os tremores e esconder o resultado catastrófico que previa do que deveria ser o seu próprio nome. Temeu ser tomada por uma falsária de si mesma, isso devia ser ainda um outro crime cuja nomenclatura não sonhava conhecer.

Ficou novamente ereta jogando os longos cabelos para trás numa tentativa frustrada de sedução. A outra parecia impassível, concentrada em sua função cruel de ordenar e acuar as jovens presentes na sala.

As suas mãos ficaram vazias e encharcadas de suor frio. Um nervosismo intenso lhe percorria o corpo como um choque elétrico nunca experimentado, mas em seu total desconhecimento, tinha certeza de que seria essa a sensação de enfiar um dedo na tomada. De repente, imaginou-se vítima das torturas de que ouvira falar nas aulas de História, perseguidos políticos, desaparecimentos. Uma vertigem estranha lhe tirou o ar, fazendo-a procurar equilíbrio e deparar-se com aquelas lâmpadas fortes e opressoras movendo-se em círculos estranhos.

Está tudo bem?, perguntou a moça com a voz abrandada, já de pé ao seu lado como que a postos para o caso de um desmaio.

Mariana se recompôs como pode, ou seja, tentou fixar o olhar em algum ponto que parecesse mais estático que aquelas luzes dançantes.

Está sim, respondeu um pouco ofegante.

Ótimo, então pode sentar-se. A prova começará dentro de alguns minutos.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

A gaia ciência

[Para celebrar o Natal]


O sentido da nossa jovialidade. – O maior acontecimento recente – o fato de que "Deus está morto” de que a crença no Deus cristão perdeu o crédito – já começa a lançar suas primeiras sombras sobre a Europa. Ao menos para aqueles poucos cujo olhar, cuja suspeita no olhar é forte e refinada o bastante para esse espetáculo, algum sol parece ter se posto, alguma velha e profunda confiança parece ter se transformado em dúvida: para eles o nosso velho mundo deve parecer cada dia mais crepuscular, mais desconfiado, mais estranho, "mais velho”: Mas pode-se dizer, no essencial, que o evento mesmo é demasiado grande, distante e à margem da compreensão da maioria, para que se possa imaginar que a notícia dele tenha sequer chegado; e menos ainda que muitos soubessem já o que realmente sucedeu – e tudo quanto irá desmoronar, agora que esta crença foi minada, porque estava sobre ela construído, nela apoiado, nela arraigado: toda a nossa moral europeia, por exemplo. Essa longa e abundante seqüência de ruptura, declínio. destruição, cataclismo, que agora é iminente: quem poderia hoje adivinhar o bastante acerca dela, para ter de servir de professor e prenunciador de uma tremenda lógica de horrores, de profeta de um eclipse e ensombrecimento solar, tal como provavelmente jamais houve na Terra?... Mesmo nós, adivinhos natos, que espreitamos do alto dos montes, por assim dizer, colocados entre o hoje e o amanhã e estendidos na contradição entre o hoje e o amanha, nós, primogênitos prematuros do século vindouro, aos quais as sombras que logo envolverão a Europa já deveriam ter se mostrado por agora: como se explica que mesmo nós encaremos sem muito interesse o limiar deste ensombrecimento, e até sem preocupação e temor por nós? Talvez soframos demais as primeiras conseqüências desse evento – e estas, as suas conseqüências para nós, não são, ao contrário do que talvez se esperasse, de modo algum tristes e sombrias, mas sim algo difícil de descrever, uma nova espécie de luz, de felicidade, alívio, contentamento, encorajamento, aurora... De fato. nós, filósofos e “espíritos livres”, ante a notícia de que "o velho Deus morreu” nos sentimos como iluminados por uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, espanto, pressentimento, expectativa – enfim o horizonte nos aparece novamente livre, embora não esteja limpo, enfim os nossos barcos podem novamente zarpar ao encontro de todo perigo, novamente é permitida toda a ousadia de quem busca o conhecimento, o mar, o nosso mar, está novamente aberto, e provavelmente nunca houve tanto "mar aberto”:


NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

sábado, dezembro 17, 2011

Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios

Estou há uns seis meses com esse livro em minha companhia com as recomendações de que seria ótimo, uma das obras primas da literatura recente. Tanto que assim que a maré de mil coisas a fazer baixou (e passei para o mestrado! êh!) optei por descansar a minha cabeça lendo o tal livro do Marçal Aquino, cuja foto de capa vocês podem conferir abaixo:


O problema é que depois que se começa a ter senso crítico na vida, isso não se restringe ao que é do âmbito acadêmico, não dá para desligar o botão quando se entra de férias. É bom levantar problemas a respeito das coisas ao invés de tomar tudo como simples deleite descompromissado porque artístico. Aliás, foi isso o que sempre me incomodou no universo das Letras e contribuiu muito para que a balança pesasse mais para o lado da História, um certo ar excessivamente contemplativo e estético que às vezes deixa de lado o contexto e os compromissos inalienáveis que toda obra tem com seu próprio tempo.

Isso tudo para dizer que Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é um livro que até tem seus méritos, mas é extremamente machista. Sabe aquela velha, desgastada e muito difundida imagem da mulher simultaneamente boa esposa e piranha para satisfazer o homem? Pois então... Eu estava lendo com muita boa vontade e curiosidade a trama até uma das primeiras cenas de romance (caso não queira saber detalhes da trama, interrompa sua leitura exatamente aqui, pois vou começar a fazer essa coisa chata, porém, extremamente necessária para dizer o que eu preciso dizer) entre o casal Lavínia e Cauby. A personagem masculina, que narra a história, encaminha-se para abrir a porta para sua amada e no caminho olha desconsertado para a pia cheia de louça com que receberá a visita, "Lavei as mãos na torneira do tanque e, a caminho da sala, passei pela cozinha: louças e talheres sujos se amontoavam na pia" (AQUINO, 2005, p. 34). Até aí tudo bem, né?, o cara tem todo o direito de olhar a sua própria louça. O desagrado iniciou algumas linhas depois e tornou-se completo nas páginas seguintes. 

Continuo com o spoiler: logo ao entrar, Lavínia "deu uma discreta avaliada no caos da pia ao passarmos pela cozinha" (Idem). Nesse momento as minhas sobrancelhas devem ter se retorcido um pouco pelo pressentimento ruim que se confirmou na página 36, quando "Depois de fotografar Zacarias, Lavínia entrou na cozinha e começou a lavar a louça acumulada na pia. Não, não faça isso [Cauby diz]. Eu gosto, ela disse" (AQUINO, 2005, p. 36, grifo, desespero e desgosto meus!!!!). Para fazer o trocadilho besta com o título, para mim, a pior notícia já estava dita.

Vocês vão me perguntar: "por que, então, continuar a leitura?". Não é porque eu gosto de sofrer, é porque eu não podia simplesmente tomar o livro todo por essa manifestação ridícula de misoginia com a clássica compreensão de que lugar de mulher é na cozinha. Não só isso, né?, tem o adendo que nós já ouvimos inúmeras vezes, de que modificar esse papel é ir contra a natureza da mulher, a prova cabal disso é que elas gostam de servir a seus homens, amam as atividades domésticas e nascem com vocação materna. Não larguei porque queria ver até onde isso iria e porque seria pouco justo julgar o livro apenas por essa cena. Vamos então.

Depois que o relacionamento entre Lavínia e Cauby começa a existir de fato, a personalidade da personagem feminina é construída, digo, as duas personalidades o são. O quê? Você não entendeu? Deixa eu explicar: lembra de Lucíola, aquele romance do José de Alencar, lá do século XIX (quando a gente até compreende, mas não aceita!, uma postura mais machista)? É, aquele livro em que a personagem feminina se desdobra em duas, uma casta e outra pervertida? Na verdade é a personagem pervertida que tem um passado triste que justifica ela ter sido desvirtuada do caminho justo de todas as mulheres. A impressão que eu tive é que a Lavínia-Shirley (jájá eu explico isso) é uma Lucíola-Lúcia do século XXI, tanto que no final ela até adquire um terceiro nome e, para a minha nula surpresa, passa a se chamar Lúcia!

Tá, mas deixa eu voltar um pouquinho para vocês entenderem. Lavínia na verdade é histérica, retomando aquela velha imagem de que quando a mulher foge dos padrões é literalmente rotulada como fora da norma, passa a ser considerada louca. Mais um chato cliché que Marçal Aquino nos traz. A diferença é que a 'loucura' de Lavínia é ter duas personalidades, o que para mim seria esquizofrenia, mas como eu não sou psiquiatra, eu vou fingir que não acho que ela dá o nome histeria porque é essa a doença normalmente atribuída às mulheres... Daí, Lavínia é a boa moça, casta, dona de casa, doce, dedicada e delicada. A outra é Shirley, a devassa (é, igualzinho à cerveja que fica reduzindo a imagem das mulheres à vulgaridade e sexo, como mostra esse anúncio em que o verbo pegar e a silhueta feminina, como de praxe, estão bem destacados), cujo apetite sexual é constante e está o tempo todo pronta para realizar todos os desejos de ambas as personagens masculinas, Cauby e Ernani. 

A pessoa que me emprestou o livro (uma grande amiga, porém, bastante sexista - a ponto de dizer isso com um quê de orgulho que me preocupa) disse para eu relevar esses detalhes e reparar na narrativa. Lembram do argumento estético meio vazio que eu falei no início, então... Mas eu não achei a narrativa nada demais. Algum dinamismo, mas não me prendeu. O que me fez continuar até o fim, como disse, foi querer saber até aonde aquilo iria.

Lembram que eu disse que o livro tinha seus méritos? No final, tem uma certa crítica a um protestantismo fanático que anda muito na moda. O problema (sempre há muitos, meu deus!) é que ela é um pouquinho mal construída, porque no fim das contas fica reduzida a um outro preconceito: com as cidades pequenas. A história se passa numa cidade de garimpo do Pará, que não recebe nome, sugerindo que cidade pequena é tudo igual mesmo. O desfecho pretende problematizar a classificação do que é e do que não é pecado, mostrando cristãos que apedrejam um suposto criminoso. Só que o que fica no ar é que a população do interior não tem muito discernimento, cai na conversa de qualquer um, pode chegar qualquer pastor ou empresário pilantra que leva todo mundo na lábia.


Por fim, o que era para ser a minha primeira leitura de férias acabou sendo uma decepção e mais uma constatação de que esse mundo precisa mudar. E que reforçar preconceitos, estereótipos e desigualdades não deve ser o papel de nenhuma arte.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Boas Novas


Jorge Vercillo

Ela tem o frescor dos ares de maio
Ela é filha dos raios
Trovão no chão a se manifestar
Ele tem a palavra que incendeia
O andar que tudo clareia ao seu redor
Ela traz o poder da ingenuidade
Poder que opera milagres
E faz um mundo novo se inventar
Ele traz a loucura sã da coragem
E na camisa a mensagem que vem gritar:
Paz ao mundo inteiro!!
Essa é a minha guerra!!
Que Deus e Alá hão de abençoar
Enquanto fome houver,
prosperidade não há sequer
Enquanto a ganância reinar,
escravo o homem será
Mas boas-novas ainda virão no ar
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Estão vindo, já vieram!

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Aqui Neste Lugar

Sérgio Britto / Negra Li
Ninguém sabe
Quanto cabe pedir
E alguém sabe
Quanto cabe dar
Ninguém sabe
Quando cabe ouvir
E alguém sabe
Quando cabe falar

Meu amor
Será que eu posso perguntar
Quanto amor
Ainda cabe nesse seu olhar

Nós temos um ao outro, o mundo é muito pouco
Temos um ao outro e a noite para inventar
Nós temos um ao outro, o mundo é muito pouco
Temos um ao outro e o dia pode esperar

Ninguém sabe
Quanto cabe insistir
E alguém sabe
O que cabe aceitar
Ninguém sabe
Quando admitir
E alguém sabe
O que cabe negar

Meu amor
Será que eu sei adivinhar
Quanto amor
Ainda cabe aqui neste lugar

Nós temos um ao outro, o mundo é muito pouco
Temos um ao outro e a noite para inventar
Nós temos um ao outro, o mundo é muito pouco
Temos um ao outro e o dia pode esperar

A morte dos girassóis


(Caio Fernando Abreu)

Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo tenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido. Perguntei que-que foi, e ele enfim suspirou: "Me disseram no Bonfim que você morreu na Quinta-feira." Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: "É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo,e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixo-astral."

Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa. Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas. Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.

Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei
uma fera. Gritei com o pintor: "Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?" O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.

Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então,como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra,exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.

Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, cráu! Veio uma chuva medonha e deitou-se por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a idéia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda. Não havia como endireitá-lo.

Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro. Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para quecaíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santa-rita, lírio ou azaléia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.

Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu?

Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.


segunda-feira, dezembro 05, 2011

Agora falta pouco para o mundo mudar de cor -  e ele já tem muitas cores. Tem coisas que a gente não diz, as mais difíceis de engolir. Há coisas que é preciso gritar, lutar contra. Um gosto amargo e pastoso na boca, é isso que depois se converte em sulcos que gritam nas horas difíceis. É difícil se posicionar o tempo todo, ter força e voz o tempo todo. Mas a gente vai tentando com a certeza de que não ser fácil não é motivo bom o bastante para não fazer. Vez ou outra a gente até é surpreendido positivamente. Outras vezes não - e aí vale a pena chorar, gritar, xingar desde que depois passe e a gente saiba olhar o sol que nasce todos os dias. Depois passa, sempre passa.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Feriado Nacional

Paredes amarelas, emblema de série trocada, meias brancas, aulas de português, bobagens nas aulas de química, peças de teatro, bilhetinhos, provas, choros, brincadeiras, brigas, recreio, desenhos no quadro, trabalhos em grupo, festinhas, amigo oculto, ovo oculto, debates pseudo-cults, amigos, CIPQP, fantasias, professoras, professores, quadra, arquibancada, festa junina, mural, espelhos, banheiro feminino, amigos amigos amigos... Livia Bessa, Bárbara Araújo, Larissa Pace, Natassja Menezes, Bia Furtado, Fernanda Altoé, Lute, Dinho, Ivan, Edgar, Marianna Camizão, Michelle, Izabel, Natasha Marchelli, Nathalia, Rafaela, Romã, Carol Brunelli, Fernanda Veras, pessoas que me lembro sempre, outras que são só nomes e lembranças guardadas, nomes completos que a gente aprendeu na chamada! Sete anos que se estenderam e se alargam das paredes amarelas - que agora são azuis - e viraram uma coisa inexplicável, que a gente só sente. Sente ter acabado, sente ter continuado, sente ver as pessoas assim crescidas, desabrochadas como flores vistosas (papo brega de mãe orgulhosa). É bom fazer parte e ver nunca será um colégio como qualquer outro - nem será só um ufanismo acrítico como alguns gostam de acusar. Esses, os que não sabem nem nunca saberão o que é ser aluno do Colégio Pedro II.


As datas servem para memorar em conjunto! Feliz aniversário CPII!

quarta-feira, novembro 30, 2011

As unhas não correm risco, nunca tive o hábito de roê-las - nem de conjugar esse verbo, por isso soou tão estranho agora. Mas o estômago eu começo a sentir corroendo na ansiedade que sempre chamo de angústia para vestir uma personagem exageradamente cliché. As pontas dos dedos é que podem se desgastar de tanto clicar no mesmo botão, atualizar a mesma página e não ver nada ainda. Sempre o medo do fracasso, o medo da frustração, enfim, o medo que aos poucos vai se esvaindo na certeza de que de todas formas as coisas se acertam e se ajeitam de algum jeito. MAS PODIAM SE RESOLVER LOGO!!!!




terça-feira, novembro 29, 2011

Machismo na novela das oito

Aposto que de olhar o título vocês estão pensando, dã! Machismo está em todos os lugares e na novela das oito da Globo é que não ia faltar. Não duvido que existam umas dez cenas dignas de comentários críticos e revoltados a cada capítulo, mas como vocês sabem, eu não vejo mais tanta tv e o tempo de abstinência que eu pude experimentar me ajudou a ter um estranhamento maior quando me deparo com os absurdos cotidianos da telinha.

Pois bem, estava eu ontem diante da novela Fina Estampa quando, entre uma cena e outra de maldade clichê, me deparo com uma cena de violência contra à mulher. Não, eu não estou falando da personagem Celeste (Dira Paes) sendo espancada pelo marido, um esforço que considero válido de discussão do tema na sociedade. A cena que me chocou por não ter nenhuma tentativa de problematização e muita legitimação da violência foi uma cena com as personagens Danielle (Renata Sorrah) e Enzo (Júlio Rocha). Não achei o vídeo da cena (só o capítulo inteiro e não sei cortar), acompanhem a minha humilde descrição, vejam se soa familiar e escolham o final. 

Danielle está numa festa sozinha. Ela fala ao telefone com alguém enquanto bebe o que parece ser um drink quando é abordada por Enzo. O cara solta uma dessas cantadas baratas e recebe um fora. 

O você acha que acontece na sequência?

a) O cara pede desculpas e vai embora.

b) O cara insiste, a mulher continua negando e é agredida.

c) O cara insiste e consegue ir para a cama com a mulher.


Apesar de muit@s desejarem que aconteça a opção a e saibam que não são raros os casos em que a letra b acontece, a ficção global optou por nos enojar com a letra c, com agravantes assustadores de legitimação de uma suposta necessidade que as mulheres têm dos homens e os direitos que estes têm sobre elas. 

Quando Enzo aborda Danielle já do lado de fora do local da festa, entre as palavras do que para mim é um estuprador, estão frases como "Eu vou tirar o seu atraso" e "Você está precisando muito de um homem". Eu já me senti ofendida de ver a cena e ingenuamente esperei que a negativa fosse continuar, mas quais não foram meu nojo e meu estranhamento quando a mulher foi para casa, olhou para o agressor da janela (ele continuava na calçada, olhando com aquela expressão de quem acha que mulher é um pedaço de carne) e abriu a porta de sua casa para que ele subisse e "tirasse o atraso"!



Sabem o que essa cena me diz? Repete aquela concepção besta de que mulher não pode dizer não e até quando diz, está querendo dizer sim*. Esse tipo de cena diz aos homens que as mulheres estão apenas fazendo doce e que, se você transar com ela à força, você vai estar dando a ela tudo o que precisa e depois ela vai te agradecer. O que também me remete a absurdos que (como a Lola diz) os trolls ficam dizendo por aí - esses eu não vou linkar porque não se dá audiência para maluco, nem visitação para criminoso, foi minha mãe quem me ensinou -, como que você você vai estar fazendo um favor à mulher e, na verdade, ela nem sabe o que quer, não pensa. Lembram que a racionalidade é exclusividade do homem? Que mulher serve para cuidar da casa e dos filhos (não que eu acredite que não é necessário muito pensamento racional para isso) e que quem responde por ela é o pai, depois o marido e depois os filhos? Ué, você achou isso um absurdo de tempos que já se foram? Então porque a opinião e a vontade das mulheres a respeito de si mesmas e do mundo não são levadas em consideração?





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* Sobre o desrespeito ao não da mulher, um entre vários textos ótimos é o da Sara Joker que você pode ler no Blogueiras Feministas: http://blogueirasfeministas.com/2011/10/nao/ 

quinta-feira, novembro 24, 2011

A vontade de férias traz vontade de música, daquela que vem viva e com contorno de sol



O amor precisa da sorte
De um trato certo com o tempo
Pra que o momento do encontro seja pra dois o exato momento
O amor precisa de sol
E do barulho da chuva
De beijos desesperados
De sonhos trocados da ausência de culpa
Talvez o amor só seja assim pra mim
E pra você não seja nada disso
Mas eu prometo tentar aprender a te amar do jeito que for preciso
Mas se o amor quiser mudar as leis do que é certo
Ele faz que o improvável aconteça
Quando o amor vier não tema, tenha fé
Que ele será seu olhar, esplendor e beleza
Talvez o amor só seja assim pra mim
E pra você não seja nada disso
Mas eu prometo tentar aprender a te amar do jeito que for preciso


Uma preciosa propaganda contra a assistência

Talvez fosse necessário algum tipo de desculpas por não falar de uma coisa atual - parece que a internet como grande expressão do mundo acelerado e presentista precisa falar do que aconteceu há dois segundos atrás ou vai acontecer daqui pra frente. Contudo, antes de internauta ou blogueira (nem sei se sou alguma dessas coisas), sou historiadora e o passado é uma preocupação porque nunca está morto, prova disso é o meu assunto de hoje ser uma pulguinha que está coçando os meus dedos há algum tempo pedindo para ser escrita. 

Ok, Preciosa não é tão antigo assim, o filme é de 2009 e, se não me engano, assisti a ele em algum momento desse conturbado 2011. Na ocasião, tive a reação que imagino ter sido semelhante à de muitas pessoas: fiquei super sensibilizada com a história triste da menina, achei um absurdo tudo o que ela passou, pensei "como tem gente ruim no mundo", me acabei de chorar e recomendei para todos os amigos que gostam de um bom drama. À época, elegi com meus botões os temas da desigualdade, exploração sexual, racismo, discriminação como os temas de maior relevância da trama. Não digo que não sejam importantes todas essas coisas e que não seja válido que a história suscite discussões ou ao menos nos obrigue a pensar, ainda que brevemente, o quanto tudo isso está presente no cotidiano da nossa sociedade "judaico-cristã-ocidental". 

Isso, é claro, se a gente considerar quantas pessoas conseguem pensar criticamente quando estão tomadas pela emoção de cenas violentas e angustiantes. Admiro muito quem o seja, mas o que eu fiz ao longo e depois do filme foi ficar com muita raiva daquela mãe desocupada dela, até mais do que do pai ou das outras pessoas que violentam de várias formas a personagem ao longo da trama. Aí, sei lá quantos meses depois, estava eu numa ótima aula discutindo as influências do neoliberalismo nas políticas públicas educacionais no Brasil e me lembrei de algumas cenas da personagem da mãe da Preciosa. 

Uma das cenas mais impactantes

Por quê? Porque reparei o quanto esse filme é uma propaganda do modelo de self made woman levado às últimas consequências. Porque, afinal, o que a trama nos ensina não é outra coisa que não "não importa o quanto te ferrem, não importa quantas desgraças você sofra, você precisa superar isso e dar a volta por cima" - e com o seu próprio suor, porque, como todos podem ver, políticas estatais assistencialistas só levam à acomodação. Precisei me distanciar do "calor dos acontecimentos", como dizia um professor muito querido, para perceber que a personalidade da mãe é construída com base numa ideologia neoliberal segundo a qual assistencialismo é atraso para a economia, estímulo ao ócio, gasto desnecessário, além de, é claro, atrapalhar a livre concorrência da mão de obra. As pessoas que realmente querem, as realmente talentosas, vão vencer todas as adversidades. Capaz até de se tornarem pessoas melhores e de darem mais valor ao que conquistarem.

domingo, novembro 20, 2011

Se essa rua, se essa rua fosse minha...


Eu sei que não é fácil. Eu sei que você sabe que eu sei que não é fácil tanto quanto nós sabemos que vai passar mas nem por isso deixamos de repetir o máximo de vezes que dá para ver se passa mais rápido. Às vezes as coisas ficam muito à flor da pele e a gente deixa entrar um ventinho da janela que chega a doer nos poros todos. A dor parece tão funda e parece ainda mais funda porque a gente sabe que, se não tivesse assim tão sensível, não ia ter dor nenhuma. Seria até bom aquele ventinho no rosto.

Queria te dizer que estamos juntas, mas sei que às vezes você só quer ficar sozinha. Queria te dizer que eu queria que as minhas frases não te machucassem e que eu queria que pudéssemos dormir todas as noites. Que essas tais pedras que temos que botar na hora de construir o caminho às vezes são muito pesadas e que eu percebo quando elas machucam os seus dedos, doem nos seus braços e ombros e eu queria que não doessem nunca, ainda mais quando é uma pedra - mesmo uma pedrinha - que você só pega para me ajudar. Vai ver o bom dessas pedras grandes e pesadas é que ajudam a construir a estrada mais rápido, aí quem sabe chega logo a hora de podermos olhar o contorno e ver como há flores e cores e céu e nuvens em formatos estranhos e tantas outras coisas que não são essa estrada.

Eu quero ver e apontar deseducadamente e rir e sentir o sol das coisas com você. Mas enquanto isso, me dá essa pedra, deixa eu segurar desse lado de cá que a gente divide o peso.

sexta-feira, novembro 18, 2011

Eu quis cantar minha canção iluminada de sol, quis deixar para você um beijo que não precisasse ser deixado porque sempre junto, mas sempre junto não tinha saudade e a gente tava perdida, caminhando que nem duas meninas no escuro, com medo e sem saber o caminho.
A gente não sabe o caminho, mas já descobriu que tem que colocar as pedras uma a uma antes de passar. E depois colocar os pés, um de cada vez, as mãos dadas, mesmo quando é tudo ao mesmo tempo.

terça-feira, novembro 15, 2011

Rejeição e histeria feminina da Música Popular Brasileira

Há alguns dias atrás, alguns de nós ficaram chocados com dois casos de violência contra a mulher: o da moça de Natal e a outra de Belo Horizonte. Para mim, o que não choca, mas enoja são os muitos argumentos que justificam ou diminuem a proporção da agressão numa hora dessas. Não são poucas as pessoas, homens e mulheres, que ouvi comentando que se elas tivessem sido menos duronas, ou tivessem topado conversar com os caras, as coisas não seriam tão graves. No caso da Dani, me incomoda mais a série de violências que ela sofreu quando solicitou ajuda do segurança e do dono da boate.

Ela deve sofrer de excesso de fragilidade nos ossos...


Como eu disse, essas coisas me enojam, incomodam, mas na real, não chocam. Por quê? Porque violência contra a mulher e a ideia de que todas as mulheres são presas esperando o-macho-alfa-que-não-pode-ser-recusado são pensamentos bastante legítimos em nossa sociedade. Uma evidência disso é uma música que eu venho ouvindo com muita frequência sendo veiculada por uma das rádios mais tocadas no núcleo cult bacaninha do Rio de Janeiro.

Trata-se da canção A Doida, de ninguém menos que Seu Jorge, um dos destaques recentes da mpb, cujas canções eu costumava gostar. O título já revela bastante da imagem feminina que se desenha, não? Não é de hoje que as mulheres fora do padrão são colocadas no saco da loucura, muitos estudos no campo da História da Loucura se debruçaram sobre a patologização do comportamento fora da norma da mulher.

Suponho que algumas pancadas devem "curar" esse tipo de coisa.
A música conta uma breve história que pode se passar em qualquer casa noturna por aí: uma mulher que dispensa um homem. Sim, a personagem feminina aparentemente seduz o pobre coitado do homem à noite toda. Ele, enganado e iludido, paga bebidas - porque, obviamente, aceitar uma bebida é aceitar ir pra cama, como eu não pensei nisso se eu sei, como todo mundo, que toda mulher é prostituta - e depois é abandonado ao relento, pois "a doida vazou" como diz a música.

O sucesso da música para mim está bastante relacionado àqueles argumentos que defenderam os agressores da Dani e da Rhana, já que uma mulher que dispensa um homem (porque um homem é a única coisa que uma mulher precisa na vida, certo?) só pode ser lésbica ou doida mesmo. Porque todas as mulheres devem dar graças a deus todos os dias de suas vidas por terem homens dispostos a "bancar a noite inteira" e os homens, bem eles estão certos de não aceitarem um não, porque, afinal, "eles não são de perder", quando perdem, é legítimo que fiquem p*tos e acabem quebrando alguma coisa - não será culpa deles se essa coisa acabar sendo o braço ou a cara daquela que o rejeitou.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Compromissos, birras e frases ríspidas


Não posso negar que tenho o defeito de me sentir injustiçada. Sabe aquela mania que a maioria dos seres humanos têm de se encerrarem dentro de seus casulos cinzas achando que os seus problemas são os maiores do mundo? Então... Acho que eu passo uma boa parte do meu tempo enxergando moinhos enormes que não me deixam dar sequer um passo de tanto medo. Eu posso até saber que existem sofrimentos muito mais graves, mas, por mais que eu me solidarize com a dor do outro, não tem jeito, é só a minha que dói na minha própria pele. E dói bastante, bem mais fundo que a pele até. Às vezes dói no estômago, noutras ardes nos olhos insones, nas pernas esticadas ou dobradas, a depender das circunstâncias, por mais tempo do que deviam e queriam. Há os momentos de doer nos braços e nos ombros o peso; além das mãos, a escrita infindável (quem falou que escrever não é trabalho braçal nunca teve de dar aula escrevendo no quadro por um dia inteiro). Da cabeça não se fala, a falta de sono, a visão que parece diminuir a cada dia ignorando a minha aparente juventude.

Doem as contas, os prazos, as cobranças, as datas, as horas que passam, os passarinhos que começam a cantar, desaforados e lindos, antes que eu durma, o sol que nasce agredindo, de novo, os pobres e exaustos olhos. Dói a minha ausência de mim, das pessoas que amo e que pouco vejo nascerem, crescerem, envelhecerem. São dores pequenas que se somam e que eu sei que são pequenas e minhas. Não saem das minhas paredes, não são despejadas em cima de ninguém. Não se convertem em lamúrias para amigos - dos quais prefiro mesmo me afastar para não ficar uma pessoa chata e lamurienta. Daí que vem a outra dor, a da incompreensão.

Uma das coisas de que não gosto na vida é quando colocam o lazer na esfera da obrigação. Sabe quando você marca de ir à praia num lindo domingo de janeiro e reclamam da sua meia hora de atraso? Este é só um exemplo, pois nunca tive o hábito de me atrasar. Me entristece que as pessoas criem ainda mais causos e sofrimentos pelas minhas ausências, transformem-nas em ainda mais cobranças como se fosse porque eu gosto que fico noites em claro trabalhando, como se eu amasse trabalhar aos sábados e ter ainda uma vida para resolver no domingo, antes que chegue a segunda-feira e atropele o tempo, criando mais bolas de neve insolúveis.

Dois mil e onze tem sido um ano difícil, de muitas (in)definições que eu espero que passem junto com o calendário. Muitos abismos e poços cujo limo já entranhou na minha pele de um jeito que eu nem sei quantas águas de janeiro serão necessárias para limpar. Mas tenho fé e boas esponjas de banho. O que eu não preciso é de pessoas que agravem mais do que eu os meus problemas. Pessoas que criem cobranças dentro das cobranças quando o papel de amigos poderia (poderia, apenas, pois não acho que ninguém deva nada a ninguém na vida) ser acompanhado de compreensão, apoio, afeto, sei lá, essas coisas que a gente diz em cartas da adolescência e depois ficam perdidas em gavetas antigas. Essas coisas que a gente vai deixando de ser e nem percebe. Quando vê sobram só compromissos, birras e frases ríspidas.


terça-feira, novembro 01, 2011

"Tudo quanto não seja literatura enjoa-me e torna-se detestável para mim porque me importuna ou entrava, mesmo que seja hipoteticamente" (Diários, Franz Kakfa)

Não sei onde quero chegar indo a lugar nenhum nem me pergunto mais se eu sei o que é bom para mim se eu sempre caio nas minhas próprias armadilhas.

Repetir repetir repetir até ficar diferente.

segunda-feira, outubro 31, 2011

A flor e a náusea (sempre ela)

As pessoas escrevem para serem lidas. Grande obviedade, grande verdade da vida, grande frase grande que todo mundo esquece. Algumas escrevem para uma pessoa em especial, umas em especial.

Lembro que, na época da escola, eu gostava muito de me gabar da minha incrível capacidade de perceber logo como era o meu principal público leitor e bem rápido cativá-lo. Um egoísmo estranho me fazia transferir o mérito (sim, ele existe para alguns) das minhas queridas professoras, que conseguiam me ensinar como escrever argumentos passáveis, para o meu imaginado talento retórico.

Também já achei que escrita era uma questão de imaginação. A história mais criativa, com alguma beleza de acréscimo venceria. Sim, a disputa tinha de estar em jogo. Depois eu descobri que podiam se danar os outros, que eu ia continuar amando as que fossem mais bregas, dolorosas, sofridas, que tocar era sinônimo de sangue, o mais quente e mais abundante. Hoje eu tendo a achar que foram as tais adoráveis professoras que me convenceram erroneamente de que eu tinha algum talento para brincar com as palavrinhas - será que um dia eu aprendo a deixar de culpar as pobres e assumo as minhas próprias contas e riscos? - e que os meus insucessos são fruto de uma falsa fé somada a um não talento.

Passei também pelo tempo de achar que o segredo das palavras está na intensidade com que você ama os musos e as musas, passaram alguns, ficaram outros, deixaram versos, contos, textos e uma preguiça emocional de reviver cada coisa para revisar cada texto. Também teve o tempo de amar os grandes e ler exaustivamente para ver se transpirava do papel algum talento que molhasse as minhas mãos. Se eu disser que não funcionou será mentira, porque amo ser "a última geração que sabe versos", como dizia Caio de um si mesmo que ele não era.

E nesse desabafo aqui que tinha o objetivo inicial de dizer que a gente escreve para si mesmo e para o outro e o outro lê a si mesmo e acha que te lê e ninguém nunca se entende, lembrei que hoje é dia de Drummond - e que é bem melhor falar dele do que o quer que seja.



"Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio,
paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horasda tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio".

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Quanto às tão criticadas professoras de português, a elas a minha gratidão eterna pelo incômodo que me formiga a cabeça toda vez que leio um absurdo, seja maior ou menor que este aqui.


terça-feira, outubro 25, 2011

Fruta da estação

Sentia a proximidade das peles que não se tocavam, deveria existir um verbo para expressar apenas esse não toque, essa presença. Como quando a gente está em cômodos separados, mas se houve em ruídos, se vê em reflexões dos vidros dos móveis, se escuta nas pontas dos dedos que poderiam ser distantes, às vezes são, mas não sempre. Os pêlos que já não têm acento eriçam nessa indecisão provocante do semi-toque. Como quando você me liga para perguntar um caminho que tem plena certeza de que eu desconheço só para ouvir que não me importo de tentar descobrir junto com você. Como quando viramos noites em tarefas que passam a ser em dupla, trabalhos, relatórios, projetos, contos, aulas - porque as pessoas não sabem que a vida é em couple em tempo integral. E a gente se participa, confunde os temas e se pega gostando mais de uma coisa que nem é nossa - e nem existe para lado nenhum esse limite da possessividade.

Vamos ver um filme só para esquecer um pouco os problemas da vida? Vamos arrumar a casa só para esquecer um pouquinho os problemas de dentro? Vamos arrumar o cabelo, as unhas, as frases para esquecer um pouquinho que a vida é grande, grave e incerte? As roupas se misturam numa vaidade completamente perdoável. Nos misturamos e distanciamos numa oscilação de respiração ofegante de quando uma chega correndo para contar à outra que. Às vezes dormimos abraçadas e acordamos em disputa, às vezes a raiva pequena me faz querer olhar para a parede fingindo que nela não tem um espelho, mas quando acordo nada faz sentido antes de te olhar e ver que você ainda está aqui.

Adoro saber que o tempo vai passando e a gente vai construindo - assim, no gerúndio que indica ação em andamento e simultânea - coisas mais profundas. O erro foi acreditar que acharíamos as coisas todas prontas no caminho, talvez numa estrada de pedras coloridas. Quando abrimos a porta e vimos que não havia nada lá, não imaginávamos o quanto seria longo, intenso, saboroso, construir aos poucos, a cada dia, o nosso caminho.

Sabe aquele sentimento disforme que eu te mostrei num texto ainda escrito à lápis e você me falou em sussurros em outra língua? A gente foi falando, moldando, provando, vivendo, fazendo, definindo... E muda, como muda de planta, homonímia, cresce, tomba, muda de cor, brota, floresce, resseca, chega perto do céu, tomba no chão, vira adubo, vira jardim, desdobra em breguices, pieguices e originalidades.

Não importa quantas vezes tenhamos que mudar de mundo de casa de vida de cabelo de roupa de comida de país de trabalho etc. etc. etc. etc. - as minhas mãos vão estar coladas às suas.

E hoje não é vinte e nove.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Não se incomode


O que nos faz gostar de um texto, um livro, uma música etc.? Depois de um debate de que participei semana passada, em que um autor de quem gosto muito foi severamente criticado (um doce para quem adivinhar qual é o autor) fiquei pensando nos motivos que me fazem gostar das coisas e conclui que geralmente é a identificação. Já vi e li algumas tentativas de descrição da arte que passavam pela frase "Quando alguma coisa toca". Do alto de meu egocentrismo, eu percebi que só costumo achar alguma coisa digna de nota quando ela "me toca", no sentido de proporcionar reconhecimento. Quando, em certo sentido, eu me vejo definida por um texto, uma música, um quadro etc.


Livro que eu aos 11 anos, acho.


Afora os meus problemas de formação identitária, percebi que existe um problema grande nesse tipo de relacionamento com a arte ou mesmo com o conhecimento - para colocar os textos acadêmicos no bojo. É que a identificação nos coloca numa situação de conforto que considero bastante perigosa.

Num movimento paradoxal se comparado a essa postura que acabei de mencionar, eu sempre tive como uma outra definição para a arte a de que é algo que transforma as coisas ou, mais pretensiosamente, a sociedade. Artistas são pessoas que questionam, mudam, nascem desconfortáveis no mundo.

Tem uma frase que sempre me vem na cabeça e nunca sei se é da Hannah Arendt ou da Clarice Lispector (não sei à qual das duas devo pedir desculpas, peço a você, leitor, pela imprudência da flata de precisão), é algo como a gente sempre fazer as coisas para tentar se sentir em casa no mundo. Tá aí o problema, se a gente está desconfortável, acha alguma poesia bonita de alguém que também já esteve e pronto, supostamente a angústia está saciada e podemos continuar a nossa marchinha de ovelhas.

Cartaz do movimento Maio de 68 na França

Tenho pensado que o desafio da arte - e aí eu me estendo para o conhecimento de modo geral - é lidar com o estranhamento, com o que não diz respeito a nós, para aí sim, construir o que é esse nós (que pode ser preferível, mas não exclui o construir um eu) e ao invés de tentar se sentir em casa no mundo, construir um mundo em que a gente se sinta em casa. Difícil? Deve dar um trabalhão, né? Como uma professora minha costuma dizer, o problema de desconstruir algo é ter de construir outra coisa para colocar no lugar.


segunda-feira, outubro 17, 2011

Tia Aila, tia Fátima, tia Deise, tia Val, Adriana, Vera, Danuza, Dona Ida, Elenice, Léa Anastassakis, Moema, Adriana de novo, Sônia, Luciene, Celso (ainda!), Lourdes, Rosa Maria, Mônica, Elza, Elba, Gilda Vermeule, Regina, Marcus, Ângela, Kaká, Jackie, Fabiana, Daniel, Alessandra, Jorge, Kátia, Celiza, Magda, Cristina, Gal, Patrícia, Fanny Pomp, Patrícia outra, Roberta, Zé Cláudio, Polyana, Marcelo Beauclair, Rinaldo (por que não?), Luiz Alfredo, Eunice, Adão, Maria Alice, Lúcia, Manoel Luiz Salgado Guimarães, Murilo Sebe, Jessie Jane, Pedro Duarte, Jacqueline Calazans, Andréia Frazão, José Ricardo Ramalho, Juliana Beatriz, Flávio Gomes, Denilson Botelho, José Murilo de Carvalho, Alcilene Cavalcante, João Fragoso, Flávia Guerra, Tatiana Poggi, Douglas Átila, André Lemos, Naiara Damas, Francisco Carlos, Marcella Estevez, Mariana, Thais, outra Mariana, Mônica Lima, Wagner Pinheiro, Giovana Xavier, Dilene Nascimento, Jussara Macedo e tantos outros que o nome talvez tenha escapado mas que participaram um pouquinho. Minha lembrança, ainda que atrasada, pelo dia dos mestres.

quinta-feira, outubro 13, 2011

Quem é mais vulnerável ao preconceito?

Domingo passado teve Parada Gay em Copacabana, terceiro maior evento cultural do Rio de Janeiro, segundo o Grupo Arco-Íris. Não sei se isso é algum tipo de mérito, fico mais tentada a acreditar que esse é mais um argumento para os que criticam a participação que as boates têm nessa história. Não quero entrar nesse mérito da questão, para mim, a grande importância do evento consiste na visibilidade provocada pela avenida Atlântica pintada das cores do arco-íris e dizendo que uma grande parcela da população é privada de muitos direitos. Aliás, bato palmas para o destaque muito maior dado às frases de luta e, para os críticos de plantão, o menor espaço que as boates tiveram esse ano.

Milhares de pessoas já estão na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, e a expectativa da organização é de 1 milhão de participantes. Foto: Gabriel Macieira/Especial para Terra

Além de tudo isso, entre os objetivos da Parada estão a divulgação de informações consideradas importantes para a comunidade LGBT (perdoem se a sigla estiver errada, é que muda muito...). É aí que está a pergunta que está na minha cabeça desde domingo e que me leva a escrever isso aqui agora: consideradas por quem?

Durante o evento, sempre são distribuídos panfletos sobre assuntos como criminalização da homofobia, religião (ao contrário do que conservadores de plantão podem pensar, me refiro a panfletos de igrejas que acolhem homossexuais), união estável, propagandas de boates e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Até aí, tudo bem, informação nunca é demais. O problema está em um desses papeizinhos que fala da importância de prevenção devido à maior vulnerabilidade da população LGBT ao contágio de algumas doenças.

Reproduzo aqui o trecho pois não encontrei o folder inteiro no google (pasmem!) e estou com preguiça de scannear: "O Ministério da Saúde preconiza e disponibiliza a vacina [contra hepatite b] no Sistema Único de Saúde (SUS) para os grupos de maior vulnerabilidade, independente da faixa etária. Entre eles, destacamos: Lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais; mulheres que fazem sexo com mulheres; homens que fazem sexo com homens".

Além das dúvidas que tenho quanto essas duas últimas "categorias" sexuais (quem sou eu para rotular se as pessoas querem criar mais uma?), fiquei me perguntando sobre o embasamento biológico dessa vulnerabilidade, já que a cartilha do Ministério da Saúde sobre o assunto descreve as formas de contágio sem apontar esses grupos de risco.

O mesmo folheto incentiva a realização do exame que diagnostica a presença do vírus HIV. Claro que realizar o teste é importante, mas... Eu não sou ingênua a ponto de perguntar quem foi que disse que homossexuais são as vítimas preferidas da Aids, porque eu sei que muita gente já disse isso. Não querendo me valer do órgão oficial da saúde como única verdade sobre doenças, mas no que diz respeito à Aids, o Ministério menciona sim os homossexuais. Entretanto, ao contrário do que muita gente ainda pensa, para dizer que os cuidados relativos à população LGBT nesse caso se deve ao estigma e ao preconceito imputados. Para o espanto de muitos, o portal destaca ações específicas de prevenção entre jovens, mulheres e presidiários.


Obviamente, nem tudo são flores no reino do Ministério da Saúde, já que até a campanha que critica o preconceito (acho muito legal o slogan "A Aids não tem preconceito, você também não deve ter") diz que as pessoas são corajosas por exporem sua soropositividade. Não sei se esses jovens-selecionados-de-acordo-com-o-padrão-de-beleza-vigente são realmente soropositivos, procurei o site indicado para ter maiores informações e - tcharam! - o link está corrompido (o que também explica essa imagem pela metade aí, desculpem). Acho importante que as pessoas desassociem a doença daquela imagem do doente terminal dos anos 1980, mas acho pouco provável que substituir pelo padrão de beleza dê conta de desconstruir preconceitos. Para mim, Aids não tem cara e ponto.

quarta-feira, outubro 12, 2011

Tem algum tipo de incompatibilidade, desarmonia para além do desânimo. Sei que não tem cura. Sabemos que não. Não é doença. É só uma coisa que não sabemos o que é e vai ficando e neblinando as coisas, as pequenas coisas, as pequenas farpas que a gente já não faz questão de guardar, os pequenos cuidados e carinhos que a gente vai deixando pra lá. A vida anda sem literatura - e também sem vontade de ler. Anda silenciosa, sem vontade de ouvir, falar, escrever. Anda um dia atrás do outro, tentando não pensar nas coisas grandes, mas até as pequenas têm sido assim. E vão passando os dias, vários, sem que a gente saiba como vai ser.

terça-feira, outubro 11, 2011

Eu nasci bem depois do que eu gostaria, mas apesar da ausência de cartas que povoa o meu mundo, a greve dos correios ainda consegue parar muita coisa. Sinto saudades de um tempo de confissões graves, faz muito eu me fechei num casulo estranho, vazio, vazio. Por opção, eu acho (o vazio e o trancamento), apesar da minha cara de quem nunca escolheu nada na vida.